A República não tem Reis
Os governantes são eleitos para servir, não para serem adorados
Ao longo da minha vida, conheci políticos de várias ideologias, mas todos tinham algo em comum: a proximidade com a população.
Nos últimos anos, os políticos têm mudado seu comportamento. Depois de eleitos, passam a agir como celebridades, em vez de representantes da população. Não basta apenas administrar o município. Eles precisam aparecer com microfone sem fio, serem fotografados, fazer selfies, produzir vídeos, estarem sempre cercados por pessoas e alimentar sua imagem e seu ego todos os dias.
Na Região Metropolitana de Salvador, esse comportamento de político influencer é comum, especialmente em Camaçari.
É curioso notar que alguns políticos são raramente vistos fazendo coisas simples. Tente lembrar da última vez que viu um político sozinho em uma padaria, empurrando um carrinho no supermercado ou caminhando pelas ruas. É difícil. Quando saem, estão sempre cercados por assessores e apoiadores, formando uma verdadeira “corte”.
É claro que, em algumas situações, a segurança pessoal é importante. No entanto, não podemos usar a segurança como justificativa para tudo. O que acontece é que eles criam uma imagem de autoridade baseada na distância; quanto mais distantes estão, menos acessíveis se tornam.
A ciência política, chama este comportamento de personalização do poder. O governo passa a ter a cara do governante. A gestão se torna menos importante do que a imagem de quem governa. E, quanto mais se preocupa em construir essa imagem, menor é o espaço para ouvir críticas.
É nesse cenário que aparece uma figura conhecida em qualquer cidade: o puxa-saco. Não estou falando do assessor que trabalha, orienta, discorda quando necessário e ajuda o prefeito a tomar decisões. Esse profissional é importante para qualquer administração. Falo daquele que transforma a proximidade com o político em profissão. Sua principal função é alimentar o ego do político e protegê-lo de qualquer crítica.
Em Camaçari, as pessoas encontraram uma maneira própria de identificar esses personagens. Eles são chamados de “mão no saco”.
A expressão é forte e até engraçada, mas revela uma percepção que não deve ser ignorada: há gente ao redor do poder mais interessada em estar perto do governante do que em aproximá-lo de quem realmente precisa ser ouvido.
Durante a campanha o candidato segue o mesmo roteiro: vai às ruas, beija crianças, toma café na casa de alguém, grava vídeo prometendo escutar todo mundo, abraça pessoas, conversa na feira e promete estar próximo do povo. Depois da eleição, conseguir conversar com o prefeito pode se transformar em uma verdadeira peregrinação atrás de assessores, secretários e intermediários.
Nem todo mundo quer falar em público ou ter sua conversa gravada. Lembre-se de que os políticos estão usando microfones sem fio. Há pessoas que precisam discutir problemas familiares, questões de saúde, dificuldades financeiras ou situações delicadas. Elas não querem aparecer em vídeos.
Esse pode ser um dos maiores problemas da política brasileira. Alguns governantes parecem gostar dos símbolos da monarquia, mesmo sendo eleitos em uma República.
Eles gostam dos likes, dos compartilhamentos, das palmas, das fotos e da reverência. Enquanto isso, o cidadão comum tem dificuldade até para ser recebido e ouvido.
Quando isso acontece, a política se transforma em culto à personalidade. A aparência passa a ser mais importante do que a administração. O espetáculo ocupa o lugar da gestão e a propaganda toma o espaço da escuta.
Uma cidade não precisa de reis. Precisa de prefeitos. Não precisa de “mão no saco”. Precisa de servidores competentes. Precisa de cidadãos livres para falar, cobrar, discordar e serem ouvidos.
Em uma República, a autoridade de um prefeito não deveria ser medida pelo tamanho da sua comitiva, e sim pelo seu caminhar pela própria cidade, entrar em uma padaria, conversar com quem está na fila e continuar sendo tratado como o que realmente é: um cidadão que, por algum tempo, recebeu a responsabilidade de cuidar da cidade dos outros. No fim, a conta é paga pela própria democracia.
Luiz Duplat duplat.luiz@hotmail.com é médico obstetra, especialista em saúde da família e ex-secretário de saúde de Camaçari
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12agosto2026