O Brasil não pode sair das urnas de joelhos para os Estados Unidos
Entre Lula e Flávio Bolsonaro, a escolha envolve democracia, soberania nacional e conquistas sociais que nenhum governante tem o direito de tratar como descartáveis
Nenhum descontentamento com um governo justifica entregar o futuro do país a um projeto que coloque em risco a liberdade de seus cidadãos e a soberania nacional. Governos passam. A destruição das instituições pode comprometer gerações.
É essa responsabilidade que acompanha o voto de domingo. Lula e Flávio Bolsonaro representam caminhos distintos sobre o lugar do Brasil no mundo, o papel do Estado e os limites do poder.
Flávio carrega a herança política de um movimento cujo principal líder, Jair Bolsonaro, foi condenado por tentativa de golpe de Estado. Esse histórico não desaparece com uma campanha bem produzida nem com a troca do nome na urna. Exige compromissos democráticos claros e confiáveis.
Na relação com os Estados Unidos, Flávio defende parcerias para explorar minerais estratégicos e a entrada do Brasil no Escudo das Américas, liderado por Donald Trump. Lula defende desenvolver no país a indústria desses minerais. Essas escolhas precisam ser julgadas pela autonomia que preservam e pelos benefícios que deixam aos brasileiros.
O que está em jogo essa eleição também são as imensas riquezas brasileiras, agora turbinadas pelas maiores reservas mundiais de terras raras. E o Brasil não tem só mais esse tesouro, tem petróleo, biodiversidade e capacidade produtiva. Precisa transformar essa riqueza em tecnologia, trabalho e bem-estar. Negociar com potências exige firmeza. Quem chega à mesa disposto a agradar antes de defender seus interesses já começa pagando a conta.
Também é preciso examinar o que se oferece sob a bandeira do combate ao crime organizado. A cooperação entre países pode fortalecer investigações. Mas qualquer acordo deve preservar o comando brasileiro sobre decisões e operações em nosso território. A preocupação com os efeitos do Escudo das Américas sobre a soberania chegou às próprias Forças Armadas, segundo a Folha de São Paulo.
Facções precisam perder dinheiro, armas e proteção. O medo da população não pode ser explorado para tornar aceitável uma tutela estrangeira.
O mesmo rigor vale para as promessas econômicas. Flávio promete um TESOURAÇO no orçamento e nega cortes sociais. Deve explicar, portanto, como pretende ajustar as contas e garantir os recursos do SUS, da educação e da proteção aos mais pobres. Direitos exigem orçamento, não apenas declarações de campanha.
Votar em Lula não obriga ninguém a aderir à esquerda. É possível discordar, cobrar e fazer oposição, reconhecendo que preservar a democracia e a soberania constitui uma responsabilidade maior.
Quem conhece os antecedentes autoritários e aceita seus riscos faz uma escolha pela qual responde. O voto não apaga essa responsabilidade.
Perder uma eleição é suportável. Perder a democracia compromete até o direito de corrigir a escolha seguinte. Nenhuma rejeição a Lula justifica esse risco. O Brasil não pode sair das urnas de joelhos para os Estados Unidos da América.
José Américo Moreira da Sillva zamerico1961@gmail.com é jornalista, publicitário, consultor político, baiano radicado em Brasília
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23outubro2026