O corredor sumiu
No filme "A Família" (1987), de Ettore Scola, o passeio da câmera pelo corredor é sinal de que os integrantes da família estão ficando mais velhos. Cada visão do corredor deserto é sinal de que na próxima cena estarão todos com pelo menos 10 anos a mais.
Antes enormes, largos, os corredores foram encolhendo. Saíram das casas com quintal e tudo e foram morar em apartamentos, de onde se passou a sair praticamente da sala para o quarto, quase sem passagem.
Será que a arquitetura moderna bolou isso pra gente não ver mais o tempo passar ou não ver na linha final do corredor quem está chegando?
O corredor da minha casa em Ipiaú (BA) dava até pra jogar bola e seus azulejos amarelos, com desenhos mais escuros nas pontas, eram friozinhos para sentar numa tarde quente e ficar jogando gude. Muitas vezes a gude sumia no corredor e demorava pra achar.
Além da sala de visita, cabiam três quartos ao longo do corredor. Era vir correndo de dentro da sala de jantar para abraçar meu pai Waldemar que acabava de chegar da sua Padaria Minerva, quase sempre com uma surpresa, como um pão doce em forma de caubói ou de um jacaré, com o que a gente fazia sucesso com os amigos. "Meu pai não faz pra vender, só pra gente".
No corredor cabia ainda muito mais coisa: revistas, pedaços de papel para fazer colagem, bolas de vários tamanhos, formigas de antenas tiradas, o chapéu do velho pendurado, uma capa de chuva e ainda duas cadeiras de lona encostadas na porta da rua, que eram pra calçar um pouco, pois quem quisesse entrar era só empurrar que já estava dentro de casa.
Faziam também parte do corredor pequenas quedas e rápidas corridas, às vezes tropeçando numa tia que saía do quarto com um penico na mão. E é do corredor de Ipiaú que vêm os gritos dela pelo penico derramado, pelo banho ainda não tomado e pelo café que tá na mesa.
Percorro o corredor lentamente, como a câmera de Ettore Scola. Vejo as tias rezando e os alvos e compridos bigodes de meu avô Chico Ribeiro que, já viúvo, coloca um pouco de talco no corpo para dormir, vestindo seu pijama velhinho mas muito bem engomado. Assim o velho morreu um dia, com o pijama e o talco, fazendo um neto começar a aprender o que é sumir da vida.
Já no fim do corredor, viro-me para uma última olhada antes de fechar a porta. Fechar, não, apenas encostá-la, pois estarei sempre voltando àquele corredor. (Crônica publicada no jornal A Tarde em 27/9/1989).
Chico Ribeiro Neto chicoribe@gmail.com nasceu em Ipiaú (BA) é jornalista profissional, começou na Tribuna da Bahia. Trabalhou na sucursal da Revista Manchete em Salvador e na sucursal do Jornal do Brasil em Porto Alegre. No jornal A Tarde foi editor de Economia, chefe de Reportagem e secretário de Redação
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18outubro2026