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JOSÉ AMÉRICO NO COLUNISTAS: O jogo das narrativas controladas pelos candidatos


José Américo Moreira da Silva é jornalista

Presidente que foge do debate quer governar sem ser questionado?


Lula e Flávio Bolsonaro ainda não confirmaram presença no primeiro debate presidencial de 2026 e transformam uma decisão de campanha numa questão maior: quem pretende governar o Brasil pode escolher quando e por quem será confrontado?


Há algo de contraditório numa eleição presidencial em que os candidatos querem falar com milhões de brasileiros, ocupar as redes sociais, produzir vídeos, fazer discursos, conceder entrevistas cuidadosamente escolhidas e, ao mesmo tempo, cogitam não estar diante dos adversários para responder perguntas que não conhecem previamente.


É exatamente esse o cenário que antecede o primeiro debate presidencial de 2026, marcado pela Band para 23 de agosto. Até agora, Lula e Flávio Bolsonaro, os dois principais nomes da disputa, não confirmaram presença. A emissora chegou a transferir o encontro, inicialmente previsto para o dia 16, para compatibilizá-lo com a agenda do presidente. Mesmo assim, a dúvida permanece. Flávio, por sua vez, adotou uma estratégia curiosa: diz que sua participação depende da presença de Lula. Ou seja: um olha para o outro antes de decidir se olha para o eleitor.


E não estamos falando de um programa qualquer. A Band carrega uma tradição histórica. Em 17 de julho de 1989, quando o Brasil voltava a escolher diretamente seu presidente depois de quase três décadas, foi nos estúdios da emissora que aconteceu o primeiro debate presidencial da televisão brasileira. Nove candidatos participaram daquele encontro, entre eles Lula, Leonel Brizola, Mário Covas, Paulo Maluf, Roberto Freire e Ronaldo Caiado.


Desde então, o debate tornou-se parte do ritual democrático brasileiro. Ali o candidato perde o conforto do roteiro, do teleprompter, do vídeo editado e da plateia de apoiadores. Precisa responder, contestar, explicar números, defender propostas e enfrentar perguntas incômodas.


É justamente por isso que campanhas passaram a tratar debates como operações de risco. Para quem está na frente, muitas vezes prevalece a velha lógica eleitoral: se há mais a perder do que a ganhar, melhor não arriscar.


Pode ser compreensível como estratégia. É bem mais difícil defendê-la como prática democrática.


A disputa de 2026, além disso, está longe de estar resolvida. Levantamentos recentes mostram Lula e Flávio Bolsonaro ocupando as duas primeiras posições, embora com diferenças importantes entre os institutos. Pesquisa CNT/MDA divulgada nesta semana apontou Lula com 42,4% e Flávio com 28,7% no primeiro turno; numa eventual segunda rodada, 48% a 39,1%.


São justamente os candidatos com maior possibilidade de governar o país que deveriam ter maior obrigação política — ainda que não exista obrigação legal — de se submeter ao confronto público.


Debate não é favor concedido à emissora. Não pertence à Band, à Globo, ao SBT ou a qualquer outro veículo. É um serviço ao eleitor.


E há uma diferença essencial entre comunicação eleitoral e debate. Na propaganda, o candidato escolhe o que pergunta e o que responde. No debate, não. Talvez esteja exatamente aí o problema.


A Band já avisou que realizará o encontro mesmo diante de ausências e que manterá vazio o púlpito reservado a quem decidir não comparecer.Pode ser uma imagem poderosa desta eleição.


Porque púlpito vazio também comunica. E talvez diga mais sobre um candidato do que muitos minutos de propaganda cuidadosamente produzida.A referência histórica de 1989 me parece especialmente importante porque transforma a eventual ausência dos dois favoritos em algo maior do que uma simples decisão tática de campanha: coloca em discussão o próprio esvaziamento dos debates como instrumento democrático. ⁠


José Américo Moreira da Silva zamerico1961@gmail.com é jornalista, publicitário, baiano radicado em Brasília 


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

14agosto2026

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