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ZEDEJESUSBARRETO NO COLUNISTAS: A Copa 2022 no Catar


José de Jesus Barreto é jornalista, pesquisador, autor de livros e escrevinhador

Um título das arábias para Messi 


Não foi Messi quem ganhou o terceiro título mundial para Argentina no Catar, em 2022, a primeira Copa realizada no mundo árabe. Foram os argentinos – atletas, treinadores e torcedores - que deram o título a Messi, ídolo de um povo amante da bola, um fora de série. Estava por merecer. Aos 37 anos e não ainda endeusado como seu compatriota Maradona - mas tão ou mais grandioso, até por conta da quantidade superior de gols e títulos conquistados -, a Messi faltava um título mundial com camisa 10 albiceleste da pátria, manto sagrado de uma torcida latino-americana fanática por futebol.


 Diferente de Diego Maradona, um nativo encarnado, cria da periferia pobre urbana de Buenos Aires, Messi sempre foi mais considerado ´um europeu´, por parte dos argentinos. Isso porque o garoto Lionel foi ainda pré-adolescente para a Espanha, a Catalunha do Barcelona, onde se educou e forjou-se atleta, um craque talentoso, um vencedor. A identidade com a pátria onde nasceu, e com seus compatriotas, foi conquistada aos poucos, nos gramados, vestindo a camisa de Seleção. A consagração veio de verdade com a conquista da Copa de 2022, no Catar. A Copa do Lionel Messi, ‘La Pulga’, o camisa 10 e capitão da equipe; a alma argentina então incorporada, ou enfim assumida, como um manto.


  Culturas, diversidades   A cada quatro anos, as Copas do Mundo de futebol vão se tornando eventos culturais e espetáculos, grandes festivais com dimensões maiores, mais largas que uma mera competição esportiva. Questão de hora e lugar. Do momento histórico da humanidade e do país ou dos países onde elas acontecem. Os jogos, as disputas cada vez mais têm a ver com o contexto humano, geográfico, sociopolítico, econômico, com o momento e os locais do acontecimento.


 A Copa de 2022, a primeira no chamado ´mundo árabe´, foi um exemplo. O evento da FIFA foi basicamente bancado pelos petrodólares dos árabes. O futebol, fascinante esporte de multidões, usado estrategicamente como mecanismo de integração, troca de culturas, interesses políticos e altos negócios entre o rico, diferenciado mundo árabe e o ocidente/a Europa no foco. 


O mundo passaria a conhecer, bem mais de perto, um jeito de viver diferente – comida, vestuário, costumes, crenças, hábitos, os rigores das leis islâmicas, o regime controlador elitizado, as extravagâncias e consumo exacerbado das castas dominantes... Enfim, muitas novidades, tradições milenares, identidades, uma história diferenciada e exuberante. Orgulho e exibicionismos de um povo de ´outro mundo´.   


   Pra começar, por conta do calor, a Copa no Catar aconteceu, pela primeira vez, nos meses de novembro e dezembro, inverno na região dos desertos arábicos, os jogos (como muitas outras atividades comunitárias) noturnos. Tudo foi concentrado em torno da cidade de Doha, de prédios e estádios magníficos, com sofisticadas  tecnologias, abundâncias e as desigualdades ocultas ou meticulosamente escondidas. O Catar é um país pequeno, pouco maior que nosso Sergipe, localizado numa península, uma ponta de deserto nas águas do Golfo Pérsico ou Golfo Árabe. Um lugar único, produtor de gás e pérolas.


  As surpresas da bola  Em campo, uma primeira fase classificatória de grupos com muitas zebras, como a derrota da Argentina (que terminou campeã) para a Arábia Saudita (2 x 1); o Japão venceu por 2 x 1 e derrubou dois favoritos, a Alemanha e a Espanha; Marrocos venceu a Bélgica (2 x 0), a Tunísia venceu a França campeã de 2018  por 1 x 0; Portugal do ídolo CR 7 levou 1 x 0 da Coreia e o Brasil foi surpreendido por Camarões (1 x 0).


E aconteceram também as gostosas goleadas – Inglaterra 6 x 2 Irã; Espanha 7 x 0 Costa Rica; França 4 x 1 Austrália e Portugal 6 x 1 Suíça. Emoções, festas pelas madrugadas, a torcida árabe perplexa e enlouquecida, os promotores mais que felizes, ora. 


  Restaram nas semifinais, a hora de o camelo beber água, a Argentina do ídolo Messi,  do jovem treinador Lionel Scalonni e da fanática torcida que tomou conta e mudou a rotina de Doha.  Ficaram ainda a França do astro artilheiro Mbappé, a valente e disciplinada Croácia do meio-campista Modric (que nos abateu) e o surpreendente Marrocos, a primeira equipe africana a chegar nas semifinais de uma Copa do Mundo.


 Ficamos pelo caminho  O Brasil, sob o comando do mesmo Tite de 2018, manteve a base da copa anterior na Rússia. Com Neymar já distante de seus melhores momentos, nossa seleção não passou da Croácia nas quartas de final. Estreamos vencendo (2 x 0) a Sérvia, com dois gols bonitos – Vini Jr encobrindo o goleiro e o plástico voleio do ´pombo´ Richarlison. Sofremos para ganhar da Suíça (1 x 0) e levamos 1 x 0 de Camarões jogando com um mistão, pois já estávamos classificados. Nas oitavas fizemos nossa melhor partida, a goleada sobre a Coreia (4 x 1), os gols na primeira etapa (Vini Jr, Neymar de pênalti, Paquetá e novamente Richarlison com direito a dancinha do ´pombo´ até com participação do professor Tite, nas comemorações. Não foi bom presságio.


  Pois nos ferramos contra a aplicada Croácia, do meia Modric e do ótimo goleiro Livakovic. Fechadinhos, com um meio-campo recheado, marcando justo e explorando contragolpes em velocidade, os croatas seguraram o 0 x 0 no tempo normal e levaram a decisão para a prorrogação de 30minutos. Antes do intervalo para troca de campo, Neymar fez sua melhor jogada de toda a Copa, driblando pelo meio da zaga adversária,  tabelando e marcando 1 x 0. 


Daí, faltavam só quatro minutos para o fim, estávamos à frente do placar, bastava segurar bem atrás, mas... nos lançamos afoitamente ao ataque e perdemos a bola nas imediações da área croata; por infortúnio nosso, a bola caiu nos pés de Modric, pela meia-cancha, ele livrou-se fácil do marcador Casemiro e vislumbrou um ´parça´ avançando em velocidade pela esquerda, já no campo brasileiro, a nossa defensiva toda aberta, desarrumada. 


O cruzamento saiu por baixo e chegou aos pés de Petkovic, nas imediações de nossa meia lua, o chute frontal foi forte, a meia altura, desviou na perna de Marquinhos e Álisson não alcançou , 1 x 1, pra desespero de Neymar. Na cobrança de penalidades, perdemos por 4 x 2; Rodrygo e Marquinhos desperdiçaram. O goleirão croata foi feliz e, de novo, voltamos pra casa mais cedo. Chegamos até onde merecemos, sejamos verdadeiros. 


Só para lembrar, sem agouros, nesse time de Tite estavam Álisson, Danilo, Marquinhos, Casemiro, Paquetá, Raphinha, Vini Jr, e Neymar. Esses mesmos agora escolhidos por Ancelotti, só que quatro anos mais envelhecidos em 2026.  


A grande final! Argentina x França fizeram uma final de arrepiar, das mais eletrizantes de todas as copas, num domingo, 18 de dezembro, no belo e dourado estádio Lusail lotado. Com  as arquibancadas em azul e branco, a torcida sul-americana barulhenta empurrando, os argentinos abriram 2 x 0, na primeira etapa, com Di Maria arrebentando, pela esquerda do ataque. Parecia definido, mas qual nada! O segundo tempo foi de Mbappé, com dois gols, comandando a reação. E a virada francesa não aconteceu por conta de uma defesa milagreira do goleiro Martinez, o melhor da competição.


  As emoções continuaram na prorrogação, um lá e cá de tirar o fôlego. Messi, de centroavante, fez 3 x 2 e Mbappé (artilheiro da Copa com 8 golsmarcados) voltou a empatar, cobrando pênalti, 3 x 3. Chances de gol para os dois lados, antes do apito final. A Argentina venceu (4 x 2) na cobrança de tiros livres da marca do pênalti, Martinez mais uma vez brilhando.


 Foi o terceiro título mundial dos ´hermanos´ vizinhos. O time de branquelos sul-americanos venceu o time de franceses afro-europeus. Ironia dos tempos de migrâncias e misturas.   


  Os Heróis  Messi, glorificado, capitão da equipe, levantou o troféu e a torcida argentina fez uma festa nunca vista em Dacar, no Catar, no mundo árabe, então enfeitiçado de vez pelo futebol, esse jogo de bola com os pés. 


Um título de e para Messi, sem dúvidas, ´pero´ ... fruto de um trabalho exitoso do jovem treinador Lionel Scalloni e de astros que luziram em campo como o goleiro Martinez, os zagueiros Otamendi e Romero, um meio de campo pegador e criativo formado por De Paul, Enzo, Mac Alister; um ataque de Alvarez, Dibala, do imenso craque Di Maria e... um certo gênio da bola chamado Messi, o ´craque da Copa´. 


Resenhas detalhadas de todas elas estão no livro “Historiando as Copas”, editado pela OjuObá, em 2023, à venda pela Amazon. 


Zedejesusbarreto José de Jesus Barreto é jornalista, pesquisador, autor de livros, e escrevinhador com larga experiência na imprensa baiana, nacional e com trabalhos fora do país


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

28junho2026

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