A Presença de Eyo no Coração da LASU
Enquanto escrevo estas linhas aqui em Lagos, com o calor semelhante ao da Bahia - não posso evitar uma saudade danada do cheiro da domingueira feijoada, da carne de sertão frita, do cuscuz de milho do som do arrocha, Gilberto Gil dos pagodes, enfim, daquela energia única que só a Bahia tem. Confesso que até sinto falta do "calor humano" da RMS, daquele jeito despojado do baiano de NÃO Chamar o pessoal de "meu rei”, como se criou omito, rsrrsr...
No coração do brasão da Lagos State University (LASU), instituição que é minha base de pesquisa na Nigéria, habita uma figura intrigante: Eyo, o Orixá protetor do Estado de Lagos. Sua presença no símbolo universitário não é mero acaso, mas uma profunda declaração filosófica - a sabedoria acadêmica caminha de mãos dadas com a sabedoria ancestral. Enquanto faço meu estágio sanduíche, compreendo que estudar na LASU será também um diálogo com este Orixá que personifica a alegria sábia, a beleza ritual e a identidade histórica do povo de Lagos.
Eyo é, antes de tudo, a manifestação da alegria elevada à categoria de arte sagrada. Suas aparições públicas são espetáculos de beleza e harmonia, caracterizados por:
Vestimentas Imaculadas: O traje branco integral, da opa (bastão) ao irukere (espanta-moscas), simbolizando pureza e elevação espiritual
Máscaras Misteriosas: O "idadile" que cobre o rosto, representando a natureza inefável do divino
Movimentos Dançantes: Uma coreografia que traduz em gestos a alegria cósmica que permeia o universo
Sua estética não é mero ornamento, mas linguagem filosófica - cada elemento vestimenta conta uma história, cada movimento expressa um conceito cosmológico.
Eyo tem uma relação profundamente territorial com Lagos. Diferente de outros Orixás com cultos disseminados pela Iorubalandia, Eyo está umbilicalmente ligado à história do Estado e principalmente da ilha de Lagos. Seu culto está entrelaçado com:
A fundação e expansão de Lagos como centro comercial e cultural, as instituições tradicionais de governo da cidade, a resistência cultural durante o colonialismo, a modernização urbana que reconfigurou, mas não apagou, suas tradições
O Enigma Histórico: Por que Eyo Não Cruzou o Atlântico? Em minha pesquisa sobre os trânsitos culturais entre Nigéria e Brasil, a ausência de Eyo no panteão afro-brasileiro representa um intrigante problema histórico. Minhas hipóteses, que investigarei durante o estágio, até aqui, apontam para: Eyo não é simplesmente um Orixá, mas uma instituição político-cultural indissociável do governo tradicional de Lagos. Seu culto estava tão vinculado às estruturas de poder específicas da ilha que não poderia ser transplantado sem essas estruturas.
Lagos tornou-se um grande porto de exportação de escravizados principalmente no século XIX, quando o culto a Eyo já estava consolidado como uma instituição local específica. Os outros cultos iorubás (como os de Ogun, Yemanjá, Xangô) já haviam se difundido por toda a Iorubalandia há séculos.
O conhecimento sobre Eyo era restrito às linhagens específicas e às instituições tradicionais de Lagos. Diferente dos cultos a Ifá ou aos Orixás mais universalizados, o saber sobre Eyo não era "comercializável" ou transitável fora de seu contexto original.
Os escravizados que chegaram ao Brasil vinham de diversas regiões da Iorubalandia, criando nas comunidades de terreiro um panteão "pan-iorubá". Eyo, como culto excessivamente localizado, não se inseriu nesta síntese diaspórica.
Em meu método Egun, compreendo Eyo como uma poderosa metáfora para a própria pesquisa acadêmica: a busca pelo conhecimento requer tanto a alegria despretensiosa quanto o rigor metodológico; tanto a beleza da descoberta quanto a humildade de reconhecer o que ainda está velado (como o rosto por trás da máscara).
Durante meu estágio na LASU, investigarei não apenas os Orixás que chegaram ao Brasil, mas justamente aqueles que não fizeram esta travessia - pois suas ausências nos falam tanto quanto suas presenças. Eyo, em sua alegria sábia e em seu enraizamento urbano, me ensinará sobre os limites e possibilidades da diáspora, sobre o que se perde e o que se transforma quando culturas viajam através do trauma atlântico.
João Borges é filosofo, historiador, Babalorixá, é pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Difusão do Conhecimento (PPGDC/UNEB) e Professor em estágio de Doutorado Sanduiche na Lagos State University, Babalorixá e Artista Multe Linguagem.
Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor
26junho2026