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LUIZ DUPLAT NO COLUNISTAS: Regulação, o absurdo da saúde


Luiz Duplat é médico obstetra, especialista em Saúde da Família e ex-secretário de saúde de Camaçari

A fila que não anda — e quando anda, já é tarde 


Maria, 50 anos, mãe e avó, acima do peso, começou a se sentir mal em um dia comum e procurou a UPA. Lá, ouviu algo que muita gente já escutou: “o açúcar está muito alto”. Foi medicada, estabilizada e orientada a procurar a unidade básica perto de casa para acompanhamento.


Assim ela fez. Na consulta o médico foi direto: precisava de um endocrinologista. Maria entrou na fila da regulação para conseguir a consulta especializada.


O tempo passou. Antes de ser chamada, Maria piorou. Dessa vez, demorou a procurar a UPA. Quando chegou, o quadro era outro: um AVC. O médico explicou à família que o descontrole do diabetes tinha levado ao “derrame”. Precisava de internação, exames, tomografia e UTI. Foi inserida novamente na fila da regulação, agora por vaga hospitalar.


A filha entrou em desespero. Não era um medo sem motivo. Era memória recente. Na semana passada, uma vizinha tinha morrido ali mesmo, na UPA, após dias esperando transferência pela regulação.


Começou então o roteiro que já virou quase protocolo informal: pediu o número do protocolo e o relatório da regulação, mas a UPA negou a entrega do relatório; fotografou documentos, disparou mensagens em grupos de WhatsApp, postou no Instagram, no Facebook, pediu ajuda a conhecidos e a “pessoas influentes dos grupos políticos do município”.


Em pouco tempo, a história de Maria já circulava pela cidade. No dia seguinte, sem resposta, veio a sugestão: gravar um vídeo. Mostrar a situação. Marcar autoridades. Enviar para rádio, TV, sites e redes sociais. Expor a dor como tentativa de acelerar o sistema.


Aqui vale uma pausa. A regulação em saúde foi pensada como ferramenta técnica. Desde 2008, com a Política Nacional de Regulação, a ideia era simples no papel e complexa na prática: organizar o acesso, priorizar quem mais precisa, usar melhor os recursos escassos. Para isso, foram estruturadas centrais que fazem a ponte entre a necessidade do paciente e a oferta disponível — consultas, exames, leitos, UTI.


Na teoria, um mecanismo de justiça sanitária. Na prática, na Bahia, virou outra coisa.


Quatro anos depois da publicação do meu artigo  Regulação: “Fila da Morte" Como Acontece , aqui no Portal Camaçari Agora 2026 , o cenário não mudou, pelo contrário, se agravou. A chamada “fila da morte” ganhou mais volume, mais tempo de espera e mais histórias como a de Maria.


E isso acontece mesmo após a promessa pública do atual governador fez na sua campanha em 2022, de zerar a fila da regulação — promessa feita por quem representa um grupo político que governa o estado da Bahia há 20 anos.


O problema, portanto, não é recente. Falta leito, falta especialista, falta exame, falta integração entre os níveis de atenção à saúde. Mas também falta gestão da oferta, transparência nos critérios utilizados na regulação, monitoramento em tempo real, mas sobra centralização do processo de regulação, permitindo interferência de agentes políticos, provocando o enfraquecimento do enfrentamento de um modelo que se acomodou na escassez.


Quando o sistema falha, surge o “atalho social”: indicação política, pressão midiática, judicialização. Só que esses caminhos não criam vaga, não ampliam leito, não materializam recurso onde ele não existe. Apenas reorganizam quem entra primeiro — e, quase sempre, à custa de quem não tem acesso a esses “atalhos sociais”.


É evidente que é urgente a adoção de medidas para intervir na regulação em saúde no estado da Bahia. Embora a segurança pública, a educação e o desemprego também figurem entre os principais desafios a serem enfrentados pelo próximo governador, a situação da saúde exige ação imediata. E isso não diz respeito apenas ao futuro: o atual governo ainda dispõe de sete meses de mandato e pode — e deve — adotar medidas concretas para minimizar esse cenário. Porque, nesse intervalo, a espera na chamada “fila da morte” continua custando vidas.


Mas, voltando a Maria. Depois de dias de espera, angústia e mobilização, a vaga saiu. A transferência foi realizada. Um final que pode ser chamado de “feliz”, dentro do possível.


Mas é importante dizer com clareza: não foi o vídeo, não foi o áudio no WhatsApp, não foi o pedido a alguém influente. Foi o fluxo da própria regulação, que, mesmo sobrecarregado, acabou alcançando o caso.


Quando o acesso depende do tempo de espera e não da necessidade clínica em tempo oportuno, o sistema já falhou — mesmo quando, no fim, dá certo.


A fila da regulação não pode ser naturalizada. Nem como rotina, nem como estratégia de gestão, muito menos como palco de promessas eleitorais.


Porque, no intervalo entre entrar na fila e ser chamado, existe algo que não volta: o tempo clínico do paciente. E, muitas vezes, a própria chance de não morrer.  


Luiz Duplat duplat.luiz@hotmail.com é médico obstetra, especialista em saúde da família e ex-secretário de saúde de Camaçari


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

5maio2026

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