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João Borges no Colunistas: A devastação que avança para o cosmo


João Borges é artista, filósofo, historiador e Babalorixá

OS ALUADOS....


Todo filósofo, em qualquer tempo, reflete sobre sua realidade. Uns olham para o céu, outros para a terra. Uns buscam o que está além, outros o que está dentro. Mas todos, de alguma forma, tentam responder à mesma pergunta: o que significa existir?


Esta é a minha motivação para escrever. Não acredito que filosofia seja coisa de livro empoeirado. Filosofia é viva. Ela está na forma como tratamos o chão que pisamos, como olhamos para o céu que nos cobre, como decidimos viver juntos ou como escolhemos nos destruir sozinhos.


E, quando escrevo, não consigo deixar de pensar em uma contradição que me dói na alma: como pode uma civilização tão avançada tecnicamente ser tão primitiva na maneira de se relacionar com o planeta?


Os Estados Unidos, a maior potência econômica e militar do mundo, lideram uma nova corrida. Não mais para conquistar territórios aqui na Terra, isso já fizeram com violência e sangue. Agora, a disputa é pela Lua. Pelo espaço. Pelos recursos que estão lá fora, em planetas e asteroides que ninguém nunca pisou.


A justificativa é sempre a mesma: progresso, ciência, futuro da humanidade. Mas o que vejo é outra coisa. Vejo a mesma lógica que devastou florestas, contaminou rios e aqueceu o planeta sendo exportada para o cosmos. A mesma mão que extrai petróleo sem se importar com o amanhã quer agora minerar asteroides. O mesmo olho que vê a floresta como "madeira" quer agora ver a Lua como "território estratégico".


Não se trata de explorar. Trata-se de depredar. Não se trata de conhecer. Trata-se de possuir.


E a pergunta que não quer calar é: o que faz uma civilização querer destruir o próprio planeta e, antes mesmo de aprender a cuidar dele, já planejar destruir outros mundos?


Há algo de profundamente doentio na ideia de que se pode "ser dono" de uma estrela, de um planeta, de um pedaço do espaço. Essa noção de propriedade absoluta — que permite cercar, explorar, destruir, é uma invenção moderna, e não uma verdade universal.


Muitas culturas, ao longo da história, nunca entenderam a terra como propriedade. Para elas, a terra era mãe. Era casa. Era parente. Não se possui a mãe. Cuida-se dela.


O modelo econômico que domina o mundo, seja ele chamado de capitalista, seja chamado de socialista em algumas de suas versões, compartilha uma mesma raiz tóxica: ambos tratam a natureza como recurso, não como relação. Ambos medem o progresso pelo quanto se extrai, não pelo quanto se preserva. Ambos veem o planeta como um depósito infinito de coisas a serem usadas, e não como um organismo vivo do qual fazemos parte.


A diferença entre um modelo e outro é de método, mas não de essência. O capitalismo destrói pela ganância. Certas versões do socialismo destruíram pela ideologia. No fim, a terra sangra igual.


O que falta a ambos é algo simples e profundo: a consciência de que não somos donos do mundo. Somos, no máximo, seus hóspedes. E hóspede que depreda a casa não merece ser recebido novamente.


Não estou falando de religião. Não estou falando de culto, de templo, de reza. Estou falando de espiritualidade, essa capacidade humana de reconhecer que há algo maior do que nós, algo que nos conecta a tudo e a todos, algo que impõe limites à nossa vontade de consumo e destruição.


O antropólogo francês Pierre Claustres, em seu estudo sobre sociedades ameríndias, mostrou que muitos povos tradicionais resistiram à lógica do Estado exatamente porque tinham uma relação espiritual com o território. A terra não era deles; eles é que eram da terra.


Essa percepção é o que falta ao mundo contemporâneo. Não há tecnologia que substitua o sentimento de pertencimento. Não há foguete que leve a humanidade para Marte se ela não aprendeu a cuidar da própria casa.


A falta de espiritualidade produz uma cegueira perigosa. Ela faz com que os poderosos acreditem que podem "terraformar" outros planetas, como se fosse possível recomeçar do zero, como se a história não se repetisse. Ela faz com que bilionários planejem fugir da Terra enquanto a queimam, certos de que seu dinheiro comprará um lugar em outro mundo.


Mas o que eles não entendem é que o problema não está lá fora. Está dentro. A mesma ganância que destrói a floresta destruirá qualquer colônia espacial. O mesmo egoísmo que polui os rios poluirá as reservas de gelo da lua. A mesma incapacidade de viver em comunidade que gera guerras aqui gerará guerras nas estrelas.


Há muito tempo, povos de todos os continentes ensinam que o ser humano não é o centro do universo. Que somos parte de uma teia. Que cada ação tem consequência. Que a terra não é nossa, nós é que somos da terra.


Essa sabedoria foi ignorada, ridicularizada, apagada. Foi chamada de "primitiva", "supersticiosa", "folclórica". Enquanto isso, a civilização que se diz "avançada" continua a destruir o próprio habitat, sem aprender a lição mais elementar: não se morde a mão que te alimenta.


O provérbio iorubá, que aprendi com os mais velhos, diz: "Bí a bá tọ́jú ilẹ̀, ilẹ̀ a máa tọ́jú wa" — "Se cuidamos da terra, a terra cuida de nós".


É simples. É direto. É verdadeiro. Mas, aparentemente, é mais fácil construir foguetes do que aprender a plantar uma árvore. É mais fácil disputar a Lua do que limpar um rio. É mais fácil sonhar com Marte do que olhar nos olhos do vizinho e dizer: vamos cuidar do que é nosso.


A corrida espacial não é, em si, um problema. A curiosidade humana pelo cosmos é legítima e bela. O problema é quando essa curiosidade se torna fuga. Quando se quer colonizar outros mundos porque se perdeu a capacidade de cuidar deste. Quando se prefere destruir e recomeçar em outro lugar do que aprender a consertar o que está quebrado.


Não há outro planeta. Não há outra casa. A Terra é tudo o que temos. E se não aprendermos a viver nela com respeito, com moderação, com a humildade de quem sabe que não é dono, então nenhuma Lua, nenhum Marte, nenhuma estrela nos salvará.


A filosofia que me move não é a dos livros. É a da vida. É a que me faz levantar todos os dias e perguntar: o que posso fazer hoje para cuidar melhor do chão que piso, do ar que respiro, da água que bebo?


É uma pergunta pequena. Mas é dela que depende tudo. Àṣẹ.


João Borges é artista, filosofo, historiador, Babalorixá, é pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Difusão do Conhecimento (PPGDC/UNEB) e Professor em estágio de Doutorado Sanduiche na Lagos State University, Babalorixá e Artista Multe Linguagem 


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

8abril2026

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