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José Américo da Matta no Colunistas: Até Jorge Amado conhecia Tia Ló


José Américo da Matta Castro é jornalista, autor de três livros

Lozinha/Tia Ló a mais famosa cafetina da história de Ipiaú


 Até Jorge Amado ficou sabendo da sua existência 


Filinha, Gasa, Capuchinha e Val foram algumas das muitas cafetinas que fizeram história na cidade de Ipiaú. Estão na memória daqueles que frequentaram seus cabarés e por muito tempo ainda serão lembradas.  


Nenhuma   delas, entretanto, foi mais famosa que a lendária Lozinha, tia Ló para os mais íntimos, distintos frequentadores do badalado bordel, que por muito tempo esteve instalado num suntuoso sobrado da Rua Jaime Tanajura. 


Por meio de um relato feito por seu médico cardiologista, Dr. Jadelson Andrade, Jorge Amado, o grande escritor baiano, tomou conhecimento da existência de tia Ló e suas cobiçadas meninas e como bom pesquisador, anotou em uma caderneta detalhes do que lhe foi contado. Mais adiante contaremos esse fato. 


Batizada e registrada com o nome de Maria Rosália de Jesus, “Lozinha” nasceu no município de Jitaúna, provavelmente no final dos anos 30, e se destacou em Ipiaú nas décadas de 1960 e 1970. 


Um texto dos historiadores Samio Cássio, Albione Souza e Paulo Roberto, traz detalhes  da famosa cafetina e serviu de fonte para  que elaborássemos esta matéria. 


Lozinha era preta, bonita, estatura mediana, mais para baixa que alta, com ombros e quadris de larguras semelhantes, cintura fina e bem definida. Tinha algo de sedutora, dominadora e educada. 


 Uma foto original, provavelmente feita na sua juventude, revela a beleza que apresentava. Com recursos da Inteligencia Artificial a mesma fotografia lhe mostra mais velha. Outras imagens ilustram, incluindo uma charge da autoria do artista Jurnier Costa, ilustram esta matéria.  


Chamava-se Erotildes, o  xodó e fiel companheiro da celebre cafetina. 


Tia Ló sabia receber bem os frequentadores da sua casa e impor regras às mulheres que agenciava. Estas eram criteriosamente selecionadas e recrutadas em diversas localidades. 


Todas elas entraram na prostituição por circunstâncias alheias às suas vontades. Perdiam a virgindade em fervorosas paixões, e eram expulsas do seio familiar pelos pais, que não admitiam o que consideravam desonra.  


Essas “meninas, na grande maioria menores, viam-se obrigadas a empregar-se como domésticas – mas, pouquíssimas conseguiam trabalho na mesma cidade – e, por isto, aventuravam-se pelo mundo. 


 “ Sofriam desprezo, discriminação, frio, fome, sede e não encontravam outra opção a não ser a de aceitar assédios sexuais e eventuais proteções de rufiões, como forma de sobrevivência “, conta o advogado Zito Lacerda em um artigo publicado num site de Ipiaú. 


Encaminhadas para prostíbulos, elas eram   abrigadas, alimentadas e treinadas para o “comércio do sexo”.  Teriam que ganhar dinheiro para manter-se, pagar aluguel de quarto, alimentação, roupas, remédios e produtos de higiene”. 


Algo parecido deve ter acontecido com Lozinha e sua irmã Filinha. Conta-se que antes de chegar em Ipiaú, Lozinha foi meretriz em Jequié, e nesta cidade descobriu a sua capacidade empresarial, explorando a prostituição alheia.  


Em Ipiaú estabeleceu-se na zona boêmia conhecida como Dez Quartos, e deu continuidade aos negócios. Filinha também já estava na mesma atividade. Logo os cabarés de ambas ganharam proeminência. 


 A Boate Mandarim tornou-se famosa naquela zona do centro da cidade. 


A calamitosa enchente do rio das Contas, em 1964, impôs à Lozinha mudar o endereço do seu empreendimento. Estabeleceu-se na Rua Jaime Tanajura, proximidades da Batateira, onde inicia-se um novo capítulo da história do bordel.  


A via pública, cuja denominação homenagea o médico e ex-prefeito Jaime Pontes Tanajura, que administrou o município de 1937 a 1940, passou a ser conhecida como rua do brega de Lozinha. 


Senhoras e senhoritas da sociedade evitavam passar por lá, embora algumas delas tivessem vontade de conhecer o lupanar   e até  se imaginavam em cenas  libidinosas no lugar. 


Amiga de homens ricos, fazendeiros, empresários, autoridades, Lozinha recebeu de um deles, Sandoval, ajuda financeira para construir o sobrado onde funcionou seu castelo.  O imóvel tinha vários  quartos, cozinha, banheiros e um amplo salão onde funcionava o dancing, o bar e os encontros com a freguesia.  


Sandoval reservou um quarto luxuoso no  pavimento superior do sobrado para seus encontros com sua amante. Exclusiva do fazendeiro a teúda e manteúda tinha até segurança particular, exercida por um  soldado do destacamento militar da cidade. 


No amplo salão do pavimento térreo a  luz vermelha dava o tom de luxúria. Os furtivos casais dançavam embalados pelos instrumentos de Genésio, Leão, Gafieira, Afrodísio, Sapo, Sabiá(o cantor) e outros músicos ipiauenses.  


No repertório, clássicos de Waldick Soriano, Altemar Dutra, Cláudia Barroso, Odair José, Lindomar Castilho e cia. Certa vez, após um show no Cine Teatro Éden, Waldick Soriano apareceu por lá e ficou na farra a noite inteira. 


Tal qual na música de Odair José (Eu vou tirar você desse lugar/Eu vou levar você pra ficar comigo, e não interessa o que os outros vão pensar), algumas das mulheres que ali trabalhavam, mudaram de vida.  


Foram resgatadas por  homens  que se apaixonavam por elas e lhes deram  outras condições de  existência. Tornaram-se respeitáveis senhoras da então conservadora sociedade ipiauense. Algumas casaram de véu e grinalda. 


Atualmente funciona no imóvel que comportou a sede  do brega, uma loja de produtos do candomblé e da ubanda, a Tawnirê-Farmácia de Ervas. O prédio foi adquirido pelo babalorixá Fábio. A energia que circula é outra.  


Sukita  Em seu livro “Crônicas do Coração”, o Dr. Jadelson Andrade, conceituado médico cardiologista que cuidou por muitos anos do coração de Jorge Amado, conta uma história vivenciada no brega de Tia Ló. 


 Natural de Ipiaú, ele tinha então 17 anos, quando foi levado por seu irmão mais velho, Zito Piolho, para conhecer a famosa casa de tolerância. 


 Jadelson,  então apelidado de “Delsinho,” foi atraído pelos encantos de “Sukita”, uma jovem recém chegada na casa de Tia Ló, ainda não iniciada na função. Ela tinha 16 anos quando foi deflorada por um primo.  


Sob a acusação de ter desonrado sua  família, Sukita foi expulsa de casa apenas com a roupa do corpo. A jovem era muito bonita. No relato de Dr. Jadelson consta que ela tinha  cabelos avermelhados, olhos grandes, vivos, castanhos, pele alva, pernas torneadas  e um rosto angelical. 


Passava por muitas dificuldades, quando conheceu Magali, uma das meninas de Tia Ló, que   a conduziu para o puteiro.  Ali  ficou aguardando o momento de ser apresentada aos coronéis. Jadelson foi mais rápido, e com a conivência de Lozinha, encontrou em Sukita novas sensações e prazeres.  


O médico  contou este caso para Jorge Amado e percebeu que o escritor anotava detalhes da narrativa. Desse modo, o grande romancista ficou sabendo de Tia Ló e suas sobrinhas. 


Pelo tanto de história que rolou nos seus domínios, bem caberia Lozinha em capítulos de algum dos livros de Jorge, como ele fez com Maria Machadão, dona do Bataclan, em Ilhéus.  


A capacitação e o gringo Nos idos de 5 a 12 de dezembro de 1965, Ipiaú realizou a sua Iª Exposição Agropecuária . O evento atraiu pessoas de vários pontos do país.  


Para que a comunidade local recebesse bem os visitantes, o prefeito Euclides Neto promoveu cursos intensivos a diversas categorias de profissionais, dentre as quais garçons, taxistas e prostitutas. Estas receberam noções de higiene e de como acolher bem os que lhe procuravam.  


Na casa de Tio Ló o curso foi apenas um complemento. As meninas sempre foram capacitadas pela cafetina para o exercício da função. Belas mulheres de várias localidades baianas  e até de outros estados foram chamadas para atender a demanda.


Bill, um norte-americano grandão, que na época da Ditadura Militar estava a serviço do programa Aliança para o Progresso lançado pelos Estados Unidos, com a proposta de acelerar o desenvolvimento da América Latina, e ao mesmo tempo frear o avanço do socialismo nesse continente, passou uma longa temporada em Ipiaú. Infiltrou-se na sociedade local e gostava de frequentar as festas do Rio Novo Tênis Clube.  


Uma vez, Bill estava com sua esposa  em um daqueles bailes do RNTC quando sentiu-se incomodado com a bagunça que faziam no salão. Se retirou do local e avisou que ia procurar um local mais decente para dançar.  


Foi parar no cabaré   de Lozinha, onde, ao som de boleros, bailou a noite inteira com sua companheira. Foram bem tratados e respeitados. Pagaram e se retiraram felizes. Até gorjeta em dolar deixaram por lá.  


O livro, os gruitos e a tumba  Seu Dila, um próspero lojista, tinha boa relação com Tia Ló, que lhe reservava agradáveis surpresas. Chegada uma nova remessa de guapas, a cafetina mandou um mensageiro ao comerciante. O menino o encontrou na loja e o chamou em particular para dar o recado.  


Seu Dila, junto à sua esposa e outras pessoas, apressou-se em dizer. “Fala logo menino, comigo não tem segredos, pois minha vida é um livro aberto”. O garoto então disse: “Tia Ló mandou lhe avisar que chegou umas meninas novas lá na casa dela e pediu para o senhor ir de noite lá”.  


Diante dos olhares questionadores da esposa e funcionários, seu Dila retrucou:” Fecha esse livro menino”. 


Um ricaço, sexualmente impotente, querendo comprovar virilidade, levava uma das meninas para um quarto e pedia  que ela gritasse o quanto ele era retado. A cada frase pronunciada pela rapariga o homem lhe dava uma grana gorda. Algo correspondente a uma nota de R$100, 00 nos dias atuais. 


E assim prosseguia:  a ruma de dinheiro aumentando em cima da cama e a mulher gritando: “Vai gostoso, quero mais, bota mais , vai, vai, ai, ai, ai...”. No salão os desavisados ficavam impressionados com o que rolava ao lado. 


Não tardou para um curioso flagrá-los sentados e devidamente vestidos, bebericando whisky escocês (Scotch) e simulando o ato. Cena de teatro no rendez-vous.  


Algum músico displicente esqueceu uma  tuba dourada no sanitário do cabaré. Logo depois um bêbado adentou o local e fez xixi na boca do instrumento. Ao sair ele não conteve o entusiasmo e pronunciou em alto e bom tom: “Esse brega é chic, tem até privada de ouro. Nunca vi isso em lugar nenhum”. 


Falecida na década de 1980, Lozinha  continua viva na memória do povo, do mesmo jeito que acontece com Maria da Vovó, em Salvador, Dona Cabeluda, em Cachoeira, Amenades e Ana Bracin , em Jequié,  Maria Ramos, em Ubatã, Mineirinha, no “Tampa Surrão”, em Aurelino Leal, e   Madame Claude, em Paris, dentre outras cafetinas históricas desse mundão de Deus que a luxúria invadiu. Puta que pariu. 


José Américo da Matta Castro é jornalista, graduado pela UFBA, com larga experiência em diversos órgãos da imprensa baiana, é autor de três livros e presidiu o Conselho Municipal de Cultura de Ipiaú   


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

8março2026

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