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Luiz Duplat no Colunistas: Cuidado e raciocínio clínico


Luiz Duplat é médico obstetra, especialista em Saúde da Família e secretário de saúde de Camaçari

Da Gestão ao Postinho: A Farra dos Exames 


Depois de oito anos atuando diretamente na gestão da saúde em Camaçari, reassumir meu cargo efetivo de médico da Atenção Primária à Saúde, do município de Salvador. Confesso que imaginei que o retorno ao atendimento a pacientes traria algum estranhamento, mas não esperava que ele confirmasse, de forma tão concreta e cotidiana, uma preocupação antiga: a solicitação excessiva e, muitas vezes, irresponsável de exames. 


Como gestor, eu já via números que não fechavam. Solicitações crescentes, filas que não andavam, recursos cada vez mais escassos para atender aos exames. Agora, como médico de família da USF Yolanda Pires, em Salvador-Bahia, vejo rostos, histórias e situações que dão nome e sobrenome a esse problema. 


Atendo pacientes que chegam com pilhas de exames de laboratório e de imagem, sem saber explicar por que foram solicitados. Outros passaram por uma UPA e saíram com uma quantidade considerável de pedidos. Há ainda aqueles que fizeram consulta em clínicas privadas, receberam listas intermináveis de exames e procuram o SUS apenas para transcrever solicitações, pois não têm condições de pagar, às vezes 50, 60 exames de uma vez. 


Também se tornaram frequentes os casos de pessoas que aparecem com pedidos feitos em feiras de saúde ou em ações promovidas por organizações patrocinadas por agentes políticos, como vereadores, deputados ou pretensos candidatos, iniciativas que, sob o discurso de cuidado, acabam gerando distorções, sobrecarga e um evidente desserviço à saúde pública. Soma-se a isso um fenômeno recente e preocupante: pessoas que veem postagens na internet, feitas por alguém de jaleco, dizendo que exames “devem” ser feitos para determinada doença, e marcam consulta apenas para exigir o pedido. 


Isso não é cuidado. É terceirização do raciocínio clínico, para suprir a sua falta. 


Em consulta ao Conselho Regional de Medicina da Bahia, tive como resposta do conselheiro Dr. Emerentino de Araújo algo que deveria ser óbvio, mas parece ter se perdido no caminho: exames desnecessários geram desperdício de recursos públicos, expõem pacientes a riscos físicos e a diagnósticos equivocados, aumentam ansiedade e sobrecarregam os serviços de saúde, comprometendo a qualidade do atendimento. Mais do que isso, a prática reiterada viola o Código de Ética Médica e pode, sim, ser objeto de apuração de infração ética. 


Há um princípio básico que precisa ser resgatado: quem solicita o exame deve ser o responsável por avaliá-lo. No contexto das UPAs, isso é ainda mais claro. O médico plantonista deve pedir apenas exames que possam ser realizados e interpretados ali mesmo, no seu plantão. O que vemos, com frequência, é o paciente conseguir fazer o exame dias depois e ficar perdido, sem saber a quem mostrar o resultado, porque jamais reencontrará aquele médico.


Exame não substitui escuta. Não substitui pergunta bem-feita. Não substitui exame físico cuidadoso. Ele vem depois, quando há uma hipótese a confirmar, um caminho a esclarecer.


O professor Dr. Raymundo Paraná, referência nacional e internacional na medicina, resume isso com a clareza de quem entende o ofício em profundidade: é preciso fugir do médico que não escuta, não pergunta e não examina. Fugir de quem pede baterias de exames inúteis e fúteis, de quem vende o que prescreve, de quem empurra fórmulas milagrosas, canetas, chips e soroterapia. E, sobretudo, exigir explicação para cada exame solicitado. 


A medicina que aprendi, e que sigo defendendo depois de mais de quatro décadas de formado, não é a medicina do excesso. É a medicina do sentido. Aquela que usa exames como ferramentas, não como muletas. Que respeita o dinheiro público, o tempo do paciente e a ética da profissão. 


No fundo, a questão é menos tecnológica e mais ética. Precisamos, como profissionais e como sociedade, repensar que tipo de medicina estamos praticando e estimulando. Exame em excesso não é sinônimo de zelo. O cuidado de verdade exige critério, responsabilidade e compromisso com quem está do outro lado da mesa. Reduzir exames desnecessários não empobrece a medicina. Ao contrário, resgata aquilo que nunca deveria ter sido perdido: o bom senso, o raciocínio clínico e o respeito ao paciente e ao sistema de saúde.


Luiz Duplat duplat.luiz@hotmail.com é médico obstetra, especialista em saúde da família e ex-secretário de saúde de Camaçari


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

4março2026

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