Desculpe perguntar...
Gente perguntadeira é terrível. Muitos costumam começar com o famoso “desculpe perguntar”, como se você tivesse obrigação de responder. Curioso é que perguntar sempre foi meu ofício na vida de jornalista profissional, mas odeio gente perguntadeira. “Desculpe perguntar, mas você paga quanto de condomínio?”
Às vezes é um amigo, às vezes é um parente, a pessoa perguntadeira tem um jeito especial de lhe cercar pelas beiras. Vem como quem não quer nada e aí PIMBA ! dispara a flechada: “Seu filho tá ganhando quanto?”
Você reage dizendo que não sabe e a perguntadeira, que também adora uma fofoca, saí por aí espalhando: “É um pai desinformado!”
Fuja de gente perguntadeira. Tem uns que chegam a perguntar o preço de sua roupa: “Desculpe perguntar, mas quanto foi essa camisa no shopping?”
Uma boa saída é devolver a pergunta: “Meu condomínio é mil reais e o seu tá quanto?” Ou então atacar mesmo: “O senhor, por acaso, é pesquisador do IBGE?”
Eles adoram saber da vida dos outros, não vivem sem perguntar. Querem saber sempre, não de tudo, mas de todos. O perguntador contumaz não se limita a dar bom dia. Ele acrescenta: “Tá indo pra onde?” “Vai passar o Carnaval aqui ou vai viajar?”
A pessoa perguntadeira fica intrigada quando não sabe nem consegue descobrir o que é que aquele vizinho faz na vida. Só conseguiu descobrir que ele chega por volta de 20 horas, mas ainda não sabe que horas ele sai. Vai sondar o zelador.
“Quanto é sua faxineira? Ela cozinha também?”
“Você toma remédio de pressão?”
“Você assiste Big Brother?”
“Faz supermercado por semana ou por mês?”
“Você se dá com o vizinho?”
“Você consegue fazer poupança?”
“Você é feliz?”
Tem uma velha piada: vai passando na rua um sujeito com um pedaço de tubo na mão. Passa o perguntador, que nem o conhecia, e pergunta: “Pra que é esse tubo?” “Pra enfiar no cu dos perguntadores” é a resposta.
Uma vez, no Porto da Barra, em queria saber as horas. Passou um cara com um colete cervical e de relógio. “Por favor, que horas são?” Foi acidente”, respondeu ele.
Uma vez, na praia, milha filha Clarice, com uns 6/7 anos, arranjou uma amiga que perguntava tudo sobre a nossa vida. Perguntou onde eu trabalhava e até quanto eu ganhava. Apelidamos a menina de Perguntinha.
Quando eu estava na Tribuna da Bahia, final da década de 60, dividia um apartamento com um colega, Zé, e a mulher dele, que tinham um filho de um ano. Como Zé só começava a trabalhar às 17 horas, e era mineiro, ia à praia com o filho quase todo dia de manhã, e uma vizinha perguntadeira passava por eles no corredor. Doida pra saber o que Zé fazia na vida, um dia ela não se conteve. Brincou com o bebê no colo de Zé e falou: “Ô menino lindo, tá indo pra praia? Você não trabalha não, meu filho?” E Zé respondeu: “Ele está de férias”.
Chico Ribeiro Neto chicoribe@gmail.com nasceu em Ipiaú (BA) é jornalista profissional, começou na Tribuna da Bahia. Trabalhou na sucursal da Revista Manchete em Salvador e na sucursal do Jornal do Brasil em Porto Alegre. No jornal A Tarde foi editor de Economia, chefe de Reportagem e secretário de Redação
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1ºmarço2026