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José Américo no Colunistas: O descaso ambiental na Bahia


José Américo Moreira da Silva é jornalista

 Paraíso na água, lixão na areia


Copos plásticos jogados no chão, garrafas PET abandonadas, latas espalhadas e uma quantidade absurda de pontas de cigarro enterradas na areia compõem um cenário chocante


A Praia do Porto da Barra é, sem exagero, uma das praias urbanas mais bonitas do mundo. A qualidade da água impressiona, a transparência encanta, a paisagem é de cartão-postal permanente. É um privilégio raro em grandes cidades. Mas basta desviar o olhar do mar para a areia para que o encanto se transforme em indignação.


Copos plásticos jogados no chão, garrafas PET abandonadas, latas espalhadas e uma quantidade absurda de pontas de cigarro enterradas na areia compõem um cenário chocante. Um verdadeiro cemitério de resíduos produzido, em sua maioria, por pessoas que frequentam a praia diariamente, turistas e moradores, muitos deles autoproclamados “conscientes”, “descolados” e defensores de pautas ambientais nas redes sociais. Na prática, deixam para trás a sujeira e a irresponsabilidade.


A situação se agrava porque a limpeza pública ocorre apenas duas vezes por dia, no início da manhã e à noite. Durante todo o período de maior frequência, quando a praia fica lotada, não há garis circulando, não há coleta contínua, não há lixeiras suficientes e as poucas existentes permanecem superlotadas, transbordando lixo ao redor. O resultado é previsível: com a maré cheia, esse lixo vai direto para o mar; com a maré baixa, ele se espalha para outros trechos da costa, para recifes, para o fundo do oceano.


Nesse cenário de abandono, quem acaba prestando um serviço ambiental relevante são os catadores de recicláveis. Pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social, que recolhem latas e garrafas para garantir algum sustento, acabam reduzindo parte do impacto ambiental. Não o fazem por política pública, nem por incentivo do Estado, mas por necessidade. Ainda assim, contribuem mais para a preservação do que boa parte dos frequentadores da praia.


O Porto da Barra, porém, não é exceção. É sintoma. O retrato mais visível de um problema estrutural que se repete em toda a Região Metropolitana de Salvador e se espalha pelo estado da Bahia. O mesmo abandono pode ser observado no Litoral Norte da Bahia, nas ilhas de Itaparica e Tinharé, no polo turístico do extremo sul do estado e, de forma igualmente preocupante, nos rios, poços e cachoeiras da Chapada Diamantina e de outros mananciais naturais.


Praias e rios são tratados como se fossem espaços descartáveis. Falta controle, falta orientação, falta educação ambiental permanente. O que se vê são ações pontuais, campanhas esporádicas, limpeza emergencial para “inglês ver” e nenhuma política continuada que dialogue com quem usa esses espaços todos os dias.


Não se trata apenas de culpar o cidadão individualmente. Há responsabilidade direta do poder público. A Prefeitura de Salvador, as demais prefeituras do litoral e do interior turístico e o Governo da Bahia falham ao não enfrentar o problema com a seriedade que ele exige. Falta campanha ininterrupta de conscientização, falta presença diária do poder público nos locais mais frequentados, falta estrutura básica.


Soluções existem e são simples: distribuição de sacos de lixo nos acessos às praias e aos rios; equipes permanentes de limpeza durante os horários de maior uso; lixeiras em número adequado e bem localizadas; ações educativas presenciais; fiscalização e incentivo à responsabilidade coletiva. Nada disso é invenção. Tudo isso já funciona em outros destinos turísticos do mundo.


A Bahia vive do turismo, da força do seu litoral, dos seus rios e da sua natureza. Tratar esses patrimônios como lixeiras a céu aberto é um erro ambiental, econômico e civilizatório. Preservar não é discurso bonito nem slogan de campanha. Preservar é política pública diária, contínua e visível.


Água bonita não basta. Areia limpa é obrigação. E respeito ao meio ambiente é responsabilidade de todos — mas começa, necessariamente, pelo poder público.


José Américo Moreira da Silva zamerico1961@gmail.com é jornalista, publicitário, baiano radicado em Brasília  


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

6fevereiro2026

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