Felicidade de tolo
Ah! Mas que sujeito chato sou eu/ Que não acha nada engraçado/ Macaco, praia, carro, jornal, tobogã/ Eu acho tudo isso um saco, dizia Raul Seixas em 1973. Pois é, os brinquedos de hoje são outros. Meus vizinhos ficam encantados com humanóides chineses jogando futebol e xadrez e vencendo os humanos. Repito com Raul: “Mas eu acho isso uma grande piada/ E um tanto quanto perigosa”. A IA, Inteligência Artificial, foi criada para controlar a sociedade e baratear a produção demitindo os trabalhadores.
Ninguém diz mais, eu vi na Globo! Como se a TV fosse uma fonte infalível. Agora os ditames da IA têm força de um dogma de fé, insofismável, apesar da IA não criar nada, só copiar, segundo o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis.
Para vender qualquer produto ou serviço hoje é preciso dizer que foi desenvolvido pela IA. O Magazine Luiza criou a Barbie Magalu digital, que gesticula e ri, para vender mais. Avatares médicos vendem falsos remédios na TV e nas redes sociais. Robôs já aspiram os tapetes, cortam a grama e limpam as vidraças. Os robôs dominam tanto a vida que ao responder a um questionário a internet pergunta se eu não sou um robô. Quando envio uma mensagem pelo WhatsApp a IA troca as minhas palavras e é preciso muita atenção para eu não cometer uma gafe.
Os críticos advertem sobre os impactos socioeconômicos, éticos, ambientais e existenciais da IA e os próprios criadores da IA pedem regulação e desaceleração do processo. Os principais riscos são a concentração do poder em poucas corporações globais elevando as desigualdades sociais e a dependência das nações subdesenvolvidas; discriminação algorítmica de gênero, raça e classe; consumo massivo de energia e água; uso de dados sem consentimento dos autores; perda de controle humano sobre a IA e atrofia cognitiva com a terceirização do pensamento e da curiosidade, essenciais para a inovação e o progresso.
Na Austrália, em setembro, um agente de Inteligência Artificial da OpenAI (ChatGPT) conseguiu driblar as restrições de segurança e se infiltrar em um portal oficial de dados de saúde do governo.
Eu acho ensaios, poemas, contos e pinturas da IA um saco! A inteligência humana pode ter imperfeições, mas é também criação e libertação. Prefiro a neurose de Kafka, a irreverencia drogada de Raul Seixas, a paixão pelo jogo de Dostoiévski, o teatro do absurdo de Samuel Beckett e as cartas de amor ridículas de Fernando Pessoa à renúncia ao pensamento crítico e a submissão ao cabresto da IA por mais confortável que seja.
Passividade de gado humano como denunciou Zé Ramalho em 1979. Só a arte pode nos salvar da desumanização distópica da Inteligência Artificial que ameaça nos emburrecer e escravizar em troca de conforto e felicidade de tolo. Eh, oh, oh, vida de gado/ Povo marcado, é/ Povo feliz!
Paulo Ormindo pauloormindo@gmail.com é arquiteto, professor titular aposentado da UFBA e membro da Academia de Letras da Bahia, do Instituto dos Arquitetos do Brasil e da Associação Bahiana de Imprensa
Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor
4novembro2026