Bahia: trocar de dono ou mudar de destino?
Entre o desgaste de quase duas décadas de governo petista e a promessa de mudança de ACM Neto, o eleitor enfrenta uma escolha que oferece mais dúvidas do que garantias
Mais uma vez, a Bahia vai decidir seu futuro diante de uma pergunta incômoda: continuar com um modelo que teve quase vinte anos para demonstrar seus resultados ou apostar numa alternativa que promete mudança, mas também carrega o peso de uma velha tradição de poder?
O PT precisa responder pelo estado que governa desde 2007. Depois de tanto tempo, atribuir as dificuldades à herança recebida deixou de ser explicação. Tornou-se desculpa. Quem atravessa cinco mandatos no comando tem obrigação de apresentar resultados à altura da confiança que recebeu.
Na educação, o retrato continua preocupante: segundo a SEI, o analfabetismo atingia 9,5% da população baiana em 2025, diante de 4,9% no Brasil. É uma distância que limita oportunidades e compromete o desenvolvimento humano. (seibahia.sei.ba.gov.br) Na saúde, a cobrança deve ir além das inaugurações: o que interessa ao cidadão é conseguir consulta, diagnóstico e tratamento quando precisa.
Na segurança pública, mesmo a redução de 13,1% das mortes violentas anunciada pelo governo para 2025 não encerra a discussão sobre o modelo adotado. (ba.gov.br) Melhorar um indicador é necessário. Fazer da segurança uma realidade cotidiana é a obrigação. O cidadão não vive de balanço oficial: vive na rua, trabalha, pega ônibus e quer voltar para casa.
Do outro lado está ACM Neto. Representa a possibilidade de alternância, mas seria ingenuidade tratá-lo como novidade sem passado. Seu nome está ligado a uma linhagem política que também comandou a Bahia durante décadas. A promessa de um novo projeto vem acompanhada da memória de outro antigo grupo de poder.
Esse é o grande X da questão. A continuidade cobra confiança num projeto que considero esgotado. A oposição pede um voto de esperança, sem poder assegurar que entregará algo melhor. Trocar o governante pode abrir caminhos; mudar efetivamente o modelo exige muito mais.
O eleitor acaba diante do conhecido dilema: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. Existem outras candidaturas, mas falta uma terceira via com força para romper o cerco dos dois polos.
A Bahia reproduz, assim, um problema nacional: a polarização empobrece o debate e transforma a eleição numa disputa de rejeições. Discute-se quem precisa perder, enquanto fica em segundo plano aquilo que a população precisa ganhar.
A democracia se deteriora quando a fidelidade ao grupo vale mais que a cobrança por resultados. A eleição pode prolongar esse círculo ou começar a rompê-lo. Mas a mudança só terá sentido se o eleitor exigir mais que uma troca de sobrenomes no comando.
A Bahia precisa escolher seu destino. Já passou da hora de deixar de escolher seus donos.
José Américo Moreira da Sillva zamerico1961@gmail.com é jornalista, publicitário, consultor político, baiano radicado em Brasília
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2outubro2026