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JOSÉ AMÉRICO NO COLUNISTAS: O senador que virou pedra no sapato


José Américo Moreira da Sillva é jornalista

Wagner de padrinho a problema no PT na Bahia 


Depois de duas décadas de hegemonia, o ciclo petista está ameaçado pelo desgaste de Jaques Wagner, pela falta de afirmação política de Jerônimo Rodrigues e pelos resultados ainda frágeis nas áreas sociais que sempre sustentaram o discurso do PT


O PT pode estar chegando ao fim de um ciclo de vinte anos no comando da Bahia. E, na minha avaliação, dois personagens ajudam a explicar por que uma hegemonia aparentemente tão sólida chegou a outubro ameaçada: Jaques Wagner e Jerônimo Rodrigues.


Wagner foi o arquiteto desse ciclo. Em 2006, derrotou o carlismo, governou por oito anos, fez sucessores e tornou-se o grande padrinho do poder petista. Duas décadas depois, ironicamente, chega à reta final transformado de ativo em problema político.


O caso Banco Master produziu um desgaste que não pode ser desprezado. Investigações da Polícia Federal trouxeram à luz mensagens, contatos e relações envolvendo Wagner e pessoas próximas a ele. O senador nega irregularidades e não há condenação. Mas política não vive apenas de sentenças judiciais. Vive de confiança, credibilidade e imagem. E considero que Wagner atravessa a mais grave crise política de sua trajetória. O problema do PT, porém, não termina no padrinho. Chega ao afilhado.


Depois de quatro anos governando a Bahia, Jerônimo Rodrigues ainda não conseguiu, na minha avaliação, construir uma liderança política independente de Wagner. E chega à eleição sem poder apresentar justamente as áreas sociais como vitrines incontestáveis de seu governo.


Na segurança pública, os números são devastadores. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 mostra que cinco das dez cidades com mais de 100 mil habitantes e maiores taxas de mortes violentas do Brasil estão na Bahia. O Estado registrou 5.473 mortes violentas intencionais em 2025 e liderou o país em mortes decorrentes de intervenção policial, com 1.570 casos.


Na saúde, houve investimentos e novas estruturas, mas permanece um gargalo dramático: a regulação. Auditoria do Tribunal de Contas apontou que o tempo médio de espera saltou de 1,5 para 4,7 dias entre 2019 e 2024 — crescimento de 213%. Em 2026, documento da própria Secretaria da Saúde reconheceu insuficiência da rede para atender à demanda de média e alta complexidade.


Na educação, houve melhora no Ideb de 2025. É justo reconhecer. Mas melhorar não significa estar bem. A rede pública baiana obteve 5,4 nos anos iniciais, 4,2 nos anos finais e apenas 3,8 no ensino médio. A Bahia permanece nas posições inferiores em importantes etapas da educação básica brasileira.


É nesse ambiente que ACM Neto chega à reta final ameaçando efetivamente duas décadas de domínio petista. Pesquisas recentes mostram uma disputa apertada, com levantamentos colocando o oposicionista numericamente à frente. Não existe resultado antecipado. Existe, porém, uma hegemonia que nunca esteve tão pressionada.


Se o PT perder a Bahia em 4 de outubro, seria simplista procurar apenas um culpado. Mas, na minha avaliação, duas razões estarão no centro da explicação: um governador que não conseguiu transformar quatro anos de mandato em liderança própria e resultados sociais capazes de blindá-lo eleitoralmente; e um padrinho que, atingido pelo escândalo do Banco Master, passou de fiador a peso para o projeto que construiu.


A maior ironia talvez seja esta: Jaques Wagner ajudou a abrir, em 2006, o mais longo ciclo de poder da história recente da Bahia. Vinte anos depois, pode terminar politicamente associado ao momento em que esse ciclo começou a ruir.


José Américo Moreira da Sillva zamerico1961@gmail.com é jornalista, publicitário, consultor político, baiano radicado em Brasília  


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

25setembro2026

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