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ZEDEJESUSBARRETO NO COLUNISTAS: A Copa de 1978 na Argentina


José de Jesus Barreto é jornalista, pesquisador, autor de livros e escrevinhador

O título caseiro da ditadura vizinha   


Semelhante ao ocorrido na Inglaterra, em 1966, nossos vizinhos argentinos fizeram de um tudo para ganhar em casa a Copa do Mundo de 1978, sob comando dos militares de plantão, absolutos no poder. E venceram. Puseram grana a rodo em obras de infraestrutura superfaturadas e inacabadas, em um esquema de segurança ostensivo e patrulhador, em propagandas e controle da comunicação, da informação, em negociatas até diplomáticas, e em muitas ´otras cositas más´, muito comentadas e pouco provadas.


Aconteceram coisas estranhas, dentro e fora de campo. Arbitragens caseiras, mudanças espertas em horários de jogos, gramados enlameados soltando placas (inverno frio e chuvas), intimidações e ameaças nas ruas, em ambientes fechados e também nos estádios. O medonho general presidente Videla chegou a ´visitar´ o vestiário peruano antes do vergonhoso jogo contra o Peru - ´era um tipo que nos fazia medo´, confessaria depois o capitão Chumpitaz da equipe peruana -, e os argentinos venceram a partida por imorais 6 x 0, classificando a Argentina, que precisava de quatro gols para seguir adiante na competição. Detalhe: o goleiro peruano Quiroga, que até ali fazia uma copa perfeita, era argentino de nascimento. Os peruanos tinham chance de ir pra final, caso vencessem, mas entregaram o doce, amedrontados.


No mais, partidas duras, algumas foram violentas batalhas, ´pau puro´, árbitros pusilânimes (ou medrosos), aquela aplicação e obrigação de ganhar a todo custo dos argentinos, que venceram a final contra a Holanda (que já não era a mesma do Carrossel de 74) por 3 x1, na prorrogação, contando com a sorte e a raça, o talento, a liderança de Mário Kempes e a determinação de toda a equipe. O jogo foi no Monumental de Nuñes, com 78 mil pagantes, arquibancadas lotadas, enlouquecidas.


Mas... sejamos justos, a Argentina, comandada pelo competente Luis Menotti, tinha um timaço, com destaques para o apoiador Ardilles e para o meia, capitão, artilheiro camisa 10 Kempes, decisivo. Além deles, um ótimo goleiro, Fillol; o zagueiro Passarela, o lateral Tarantini, o avante Bertoni, o ‘tanque’ centroavante Luque...  Mereceram o título também pelo que entregaram em campo.


Brasil ´campeão moral´ A frase conclusiva ´fomos os campeões morais´ foi do treinador Claudio Coutinho, um ex-militar (da área de informação) que foi um dos preparadores físicos da seleção vitoriosa em 1970 e virou técnico. Era letrado, falava idiomas e arrotava terminologias em inglês para explicar suas invenções táticas. A seleção terminou a competição invicta, conquistou o terceiro lugar vencendo a Itália por 2 x 1, mas jogou um futebol covarde, sem brilho. Jogadores mais talentosos como Zico, Roberto Dinamite, Reinaldo, Rivelino ... foram mal aproveitados. Falcão estava voando, à época, e não foi chamado.


Nossa partida mais importante foi a ´batalha de Rosário´, contra a Argentina, os donos da casa. Uma pancadaria num lamaçal horrível, 0 x 0 ferrado e nervoso, com destaque para o bravo e catimbeiro apoiador Chicão, escalado por Coutinho apenas com o intuito de enfrentar a conhecida ´milonga´ dos ´hermanos´. Deu certo, não perdemos o jogo, nem na porrada. O clima, antes da partida, era de provocações, ameaças, brigas entre torcedores nas ruas. Em campo, 51 faltas marcadas, muita discussão, dedo nas cara, empurra-empurra... e pouco futebol.       


Curiosidades: Luis Menotti não levou Maradona, ainda um adolescente, mas que já mostrava sua genialidade; o considerava ainda imaturo para a guerra que seria aquela Copa dos ´milicos´. Talvez tivesse razão, foi uma briga de cachorro grande. Maradona viu os jogos das cabines e encantou-se com o futebol de Rivelino, que entrou em poucas partidas.


Kempes, um jogador boêmio que jogou no Rosário Central e River Plate, foi o artilheiro da competição com seis gols, alguns decisivos. Fez uma copa de atleta exemplar, de craque. Depois brilhou no Valência, da Espanha.


No jogo Brasil 1 x 1 Suécia, o árbitro galês Clive Thomas encerrou o primeiro tempo com a bola no ar após cobrança de escanteio da direita, de Nelinho. A pelota na cabeça de Zico, que fez o gol mas não valeu, o árbitro tinha apitado antes da testada. Estranho, inusitado.


A Holanda, sem Cruyff e com o técnico Ernst Happet, perdera a intensidade do Corrossel mostrado em 1974, mas chegou à final, outra vez e, apenas por ´mala suerte´, por muito pouco não se sagrou campeã. No minuto final do tempo normal de jogo, 1 x 1, Renzenbrink acertou o travessão de Fillol, numa cabeçada. Se entra... não haveria a prorrogação, quando os donos da casa se impuseram fisicamente e fizeram dois gols. Detalhes que decidem.  Foram marcados 102 gol em 38 partidas, média de 2,7 gols/jogo. A média de público pagante foi de 42.374 pessoas/jogo.     


“Historiando as Copas’, de zedejesusbarreto, lançado em 2023 pela OjuOBá Editora, à venda pela Amazon, é uma resenha contextualizada de todas as 22 edições da Copa do Mundo de futebol, da primeira (no Uruguai, em 1930) à derradeira, em 2022, a Copa de Messi no Catar/Mundo Árabe. 


Zedejesusbarreto José de Jesus Barreto é jornalista, pesquisador, autor de livros, e escrevinhador com larga experiência na imprensa baiana, nacional e com trabalhos fora do país


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

31maio2026

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