Camaçari segue com sistema de transporte precário e sem projeto de mobilidade urbana
Projeto de cidade está aquém das potencialidades geradas pela presença da maior fabricante mundial de carros elétricos no município
Carburador A presença do titular da Superintendência de Trânsito e Transportes de Camaçari (STT), na Câmara de Vereadores, quinta-feira (7), pouco ajudou a esclarecer sobre o sistema de mobilidade na cidade. Convocado pelo Legislativo, o doutor Edmilson Souza atestou que a prefeitura não apenas passou longe de um dos programas que deveria avançar. O mais grave é que insiste em descuidar.
Carburador 2 Município com área territorial de quase 790 quilômetros quadrados, Camaçari segue sem saber como transportar sua população de pouco mais de 300 mil habitantes espalhados pela sede, zona rural e pelos seus 42 quilômetros de orla.
Carburador 3 Mesmo sendo sede de um dos maiores complexos industriais integrados do planeta e com ampla circulação de pessoas/trabalhadores, Camaçari não possui sistema de transporte por trem, apesar da ferrovia que corta a sede do município e o histórico de transporte de passageiros até os anos 1970. Projetos de modernização dessa malha com ligação a Salvador, passando por Simões Filho, voltou a ser notícia no começo dos anos 2000, mas continua descarrilhado.
Carburador 4 Nesse festival de propostas nunca cumpridas aparece o prolongamento da linha do metrô de Salvador. Também com o aval do Governo do Estrado surge a alternativa de um outro sistema com o VLT (veículo leve sobre trilhos) ligando a sede do município pela via Cascalheira (BA-531).
Carburador 5 A única viagem real é a realizada pelo sistema precário e inseguro de transporte por ônibus entre Camaçari e Salvador. Apesar da conectividade política entre estado e município, trajeto já poderia estar sendo oferecido por ônibus elétricos.
Carburador 6 Numa inexplicável distância, Camaçari seque sem aproveitar a sombra da BYD, gigante mundial na fabricação de uma ampla gama de soluções de mobilidade. É essa mesma corporação que instala no município a sua maior unidade de produção de elétricos fora da China. Festejo se resume a geração de empregos, como se a cidade precisasse apenas de carteira de trabalho carimbada.
Carburador 7 Condição de sede da montadora e maior fabricante mundial de veículos elétricos e equipamentos para esses veículos, como baterias e outros componentes, não sensibilizaram a gestão passada. O alcaide Antonio Elinaldo (União), perdeu a viagem ao usar a distância do governo do PT, intermediador da vinda da unidade para a Bahia, para justificar dificuldades para essa construção.
Carburador 8 Paralisia segue com a gestão atual, que atua no varejo e de forma clara sem projetos, quando poderia agregar mais vantagens para a cidade. Seguramente ganharia frutos políticos para seu grupo com a ampliação dessa parceria.
Carburador 9 Esse descuido, fruto da falta de projeto apareceu em meados do ano passado. Em outubro a Coluna registrou a desistência da BYD de instalar na Bahia um centro P&D (pesquisa e desenvolvimento). Nota com o título “Cabeça e braços” lembrou o projeto, que a propaganda oficial chamava de ´novo vale do silício brasileiro`, terminou indo para o Rio de Janeiro.
Carburador 10 Essa ausência de um projeto mais amplo na área de eletrificação e mobilidade urbana já foi tema de outro Camaçarico. A Coluna comentou em 8 de setembro do ano passado o descuido da gestão do alcaide Luiz Caetano (PT) ao não iniciar a necessária transição da sua frota de serviços com a troca do modelo a combustão por novas tecnologias com os modelos híbridos/elétricos.
Carburador 11 Licitou por cerca de R$ 47 milhões/ano o aluguel de 251 veículos, sendo que apenas dois eram elétricos. Perdeu velocidade ao deixar de definir um cronograma de transição da frota convencional para a nova matriz. Movimento que já vem sendo realizado por outras cidades ampliou a distância de Camaçari do debate nacional e mundial sobre a crise climática e opções limpas de mobilidade e desenvolvimento urbano.
Carburador 12 Nessa marcha lenta a prefeitura não consegue botar para andar a verba federal de R$ 95 milhões do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) liberado desde o ano passado para aquisição subsidiada de 30 ônibus elétricos. Alega que faltam estudos, mas quadro fabricantes diferentes, inclusive a BYD, testaram seus ônibus em Camaçari.
Carburador 13 Outro roteiro sem destino e parada, a pouco mais de 16 meses da gestão 04 do alcaide Caetano, é a “tarifa zero”. Mesmo com dois estudos realizados pelo governo anterior e um já na atual gestão, promovido inclusive por uma empresa responsável por um dos levantamentos feitos pelo antecessor, nada se sabe. Concreto apenas os R$ 40 milhões de subsídios oriundos dos cofres municipais, aprovados pelo Legislativo e avalizado pelo Ministério Público.
Carburador 14 Numa conta rápida, basta dividir esses R$ 40 milhões por 12 meses (emergencial 6+6 meses vencendo agora em junho), para achar uma média de cerca de R$ 3,3 milhões mensais.
Carburador 15 Só que o valor repassado pelo município para a empresa garantir a operação dos cerca de 40 ônibus é inferior a R$ 2 milhões, já que parte dessa receita é assegurada com o pagamento de passagens. Subtração mostra que o saldo de cerca de R$ 1,5 milhão/mês do subsídio que não é gasto poderia bancar a gratuidade do sistema, ao menos nos finais de semana e feriados.
Carburador 16 Apesar da gorda receita e importância estratégica, Camaçari segue ano após ano ignorando sua história e sem discutir seu presente e futuro. Descompromisso do Executivo e do Legislativo, eleitos e bem remunerados para liderar esse debate e encontrar caminhos para uma cidade justa e menos desigual, pode ser exemplificado pela ausência de um plano de mobilidade urbana (Plamob). O resultado dessa barbeiragem geral vira uma conta cara e perversa paga pela população.
João Leite Filho joaoleite01@gmail.com – Editor
11maio2026 Fechamento: 18h01