Miudezas que chateiam
Coisas pequenas que chateiam, como dois ou três grãos de arroz cozido presos no calcanhar do chinelo. Ou um sapato que chia na sala de um concerto. Ou ainda aquele botão da camisa que caiu no meio da rua e que ficava bem em cima da barriga.
É tanta coisa miúda que aborrece que parece que cada hora tem uma: a mosca que só vem pousar na ponta do nariz, o pingo de sorvete na calça e a moça do supermercado que resolve encerrar o caixa bem na sua hora.
No início do almoço, feijão quentinho no prato, descobre que a farinheira está vazia. E foi só impressão pensar que ainda tinha dez contos no bolso daquela camisa azul.
Segunda-feira de noite. Antes do banho e da janta , você põe no congelador a heróica cerveja que sobrou do fim de semana. Se só tem ela, vamos tratá-la com todo carinho. Você toma banho e volta, abrindo o congelador. Pega a cadeira preferida e bota o disco que mais lhe toca. Assustado, você percebe que a única cerveja da casa não faz espuma, pois está choca.
A única agulha da casa sumiu e a tesourinha ninguém acha. O despertador parece que ficou maluco, pois tocou duas horas antes do previsto. Você acorda e só tem um pé de sandália na beira da cama.
O garçom que não vem e a surpresa que lhe causa a única ficha telefônica que você tem: “Ligação errada, não é aqui não”.
O relógio com um dia de comprado deu chabu e você ainda tem que viajar num ônibus da Transur. Chove lá fora e dentro de casa falta água.
A camisa nova descostura e a calça preferida volta da lavanderia com a bainha dura, além de uma mancha escura.
Você está numa fila do banco e na fila do lado um amigo resolve perguntar, em voz alta, sobre toda sua vida: onde está trabalhando, se já casou de novo e quantos filhos tem agora.
Você sai da fila do banco e ele diz que vai aparecer em sua casa.
É segunda-feira, na hora de trabalhar, e o carro na garagem com um pneu furado. Você lembra que o macaco está emprestado.
Acabou de tomar banho, lavou a cabeça, tá todo molhado e lembra que esqueceu de levar a toalha.
Uma pulga dentro da meia, ter que trabalhar em noite de lua cheia e ser obrigado a tomar injeção na veia.
O cisco nos óculos que não sai, o caroço de manga que das mãos cai e o táxi debaixo de chuva que diz que não vai. (Crônica publicada no jornal A Tarde em 2/8/1989)
Chico Ribeiro Neto chicoribe@gmail.com nasceu em Ipiaú (BA) é jornalista profissional, começou na
Tribuna da Bahia. Trabalhou na sucursal da Revista Manchete em Salvador e na sucursal do Jornal do
Brasil em Porto Alegre. No jornal A Tarde foi editor de Economia, chefe de Reportagem e secretário de
Redação
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21abril2026