Salvador 477 anos: Minha história na cidade
A primeira vez que eu vi Salvador foi do mar, precisamente da baía de Todos os Santos. Navegava no navio "João das Botas", da Companhia Bahiana de Navegação e fiquei deslumbrado com o cenário da secular cidade que dali eu avistava.
“Ó quão dessemelhante”. Havia embarcado no Porto de São Roque do Paraguaçu após meia hora de viagem num trem de ferro a partir da estação de Nazaré das Farinhas, cidade do Recôncavo onde nasceu minha mãe e moravam meus avós Otávio Gregório da Matta e Maria José Gonçalves (Dona Senhora), além de alguns parentes.
Seguia pra capital acompanhado de uma tia chamada Ziza (Adalgisa Lins) e me sentia como numa travessia do oceano. O que para mim era uma aventura para muitos daqueles passageiros que se encontravam na embarcação não passava de uma rotina.
Enquanto o vapor prosseguia em sua rota, eu percorria o seu interior, transitando da segunda para a primeira classe, indo da popa à proa, observando o convés, os passageiros e suas conversas, a paisagem das ilhas, mangues e povoados à beira-mar, os saveiros, as canoas.
De longe a silhueta dos prédios, o navio chegando mais perto, passando ao lado do Forte de São Marcelo, se aproximando da Capitania dos Portos.
O Mercado Modelo estava ali diante de meus olhos de menino mateiro. As lições de história e geografia repassando na mente, o Elevador Lacerda cravado na serra, o Plano Inclinado e eu extasiado, avistando a cidade.
O desembarque no porto da Bahiana, perto à rampa do mercado. Primeiros passos em solo soteropolitano, cruzando a praça, entrando no histórico elevador, subindo para a cidade alta.
Minhas primeiras hospedagens em Salvador foram na ladeira do Taboão( Edifício Orion), na Barroquinha e na Liberdade.
Nesses endereços moravam parentes e amigos da família materna. Gente simples e honesta que nos recebiam com alegria.
Quando me hospedava no Taboão, passeava pelo Pelourinho, visitava a Academia do Mestre Pastinha, me arriscava nos sobrados e ladeiras da velha São Salvador, adentrava no Maciel e chegava ao Terreiro de Jesus, à Praça da Sé.
Certa vez, hospedado na casa de Detinha, na Barroquinha, assisti ao carnaval naquela região. Presenciei o desfiles dos blocos Mercadores e Cavaleiros de Bagdá, com as suas deslumbrantes fantasias.
As arábias estavam ali na Baixa dos Sapateiros. Sultões e odaliscas falavam oxente, cheiravam lança-perfume, diziam tô retado… O cordão “Barroquinha Zero Hora”, saia à meia noite, cheio de ritmos e harmonia. Era bonito de ver.
Tinha parentes na Baixa do Bonfim, na Ponta do Humaitá, Monte Serrat. Conheci a casa do governador Juracy Magalhães.
Assisti missas na Igreja do Bonfim e na Igreja de São Francisco. Prestava mais atenção aos murais e imagens dos santos barrocos, na ornamentação dos templos e outros detalhes que neles se encontravam, do que nas pregações e ladainhas. Foram essas as minhas primeiras experiências na grande cidade.
Anos depois fui morar por lá e a conheci na intimidade. Colégio Central, pensionatos, republicas, quitinetes, pastel do chinês na Carlos Gomes, cursinho pré vestibular, aulas na Escola de Comunicação da UFBa, curtições no Vale do Canela, domingo no Porto da Barra, , noites de boemia no Avalanche, Café do Teatro, Cantina da Lua...
Namorada na Rua São Domingos Sávio, em Nazaré. Reitoria, movimento estudantil, passeatas, resistências à ditadura, intelectuais, residência estudantil, Graça, Corredor da Vitória, escadarias de Shangrilá... Só sabe quem esteve por lá. Ba-Vi na Fonte Nova.
Biblioteca Central dos Barris, casa de Jé no Alto da Sereia, no Rio Vermelho, babas na Boca do Rio, espetáculos no Vila Velha, ICBA, Jornada de Curta Metragem, Teatro Castro Alves, amizades com artistas e intelectuais, gente bonita da vanguarda.
Poetas da Praça, trio elétrico dos Novos Baianos, Avenida Sete, Praça Castro Alves.
O poeta com as mãos estendidas para o infinito, “o céu é do condor”. A multidão balançando o chão da praça. O fusquinha azul de Luci Bruni.
No Diário de Notícias o primeiro trabalho como jornalista profissional, mestres da redação me passando dicas preciosas. Jornal A Tarde, suplemento de municípios, que me trouxe de volta ao interior.
Salvador, Salvador... 477 anos. Parabéns. Te vivo com intensidade.
José Américo da Matta Castro é jornalista, graduado pela UFBA, com larga experiência em diversos órgãos da imprensa baiana, é autor de três livros e presidiu o Conselho Municipal de Cultura de Ipiaú
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29março2026