O isqueiro que ameaçou a ditadura
A ditadura civil-militar que se instalou no Brasil em 1964, que durou 21 anos, matou, torturou e exilou pessoas, suprimindo todas as liberdades democráticas. Foram 434 mortos e desaparecidos políticos vítimas da ditadura, segundo a Comissão Nacional da Verdade. Uma mancha de tristeza e revolta na história do país. Há, porém, episódios pitorescos no meio de tanta crueldade.
Na década de 70, um amigo, ligado à luta armada, estava com outro companheiro tomando uma cerveja num bar do Rio de Janeiro. Ambos estavam sendo procurados e só andavam armados, mudando de cidade. De repente, entram dois homens de paletó e gravata, apontam para eles e conversam com o dono do bar. “Esses caras devem ser do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e vão prender a gente”.
Os caras vieram em direção a eles, que já estavam com as mãos sobre as armas embaixo da camisa, Suavam frio quando um de paletó falou: “Nós somos do Departamento de Promoções da Antarctica. Essa cerveja está paga e mandamos descer mais uma para vocês. Parabéns por preferirem a Antarctica”. Na época era forte a disputa entre a Brahma e a Antarctica.
O outro caso aconteceu com meu irmão Zé Carlos. Abril de 1964. Primeiros dias da ditadura, Salvador ocupada por tropas do Exército. Meu pai Waldemar tinha um bar, “O Cisne”, na Avenida Joana Angélica, defronte ao Colégio Central, e disse a Zé numa noite: “Eu já vou, você fecha o bar mais cedo porque a cidade tá cheia de soldados e tem esse negócio de toque de recolher à meia-noite”. A ditadura proibiu menores de 16 anos de circularem pelas ruas depois da meia-noite.
Zé Carlos já tinha 16 anos, mas mesmo assim se apressou. Mas tem sempre a turma da saideira e ele acabou fechando o bar às 23:40. A gente morava na Ladeira dos Aflitos e ele passava pela Praça da Piedade, onde tinha uma tropa do Exército aquartelada, com metralhadora giratória e tudo. Todo mundo doido pra prender comunista. Afinal, eles estupram freiras e comem criancinhas.
Zé Carlos subiu a pé a Avenida Joana Angélica e chegou na Piedade quase à meia-noite. Passou diante da tropa e quis acender um cigarro. Ele tinha um isqueiro que era um revolvinho (ou revolverzinho) niquelado em que você apertava o gatilho e ele acendia. Sacou o revolvinho e foi logo cercado por soldados do Exército empunhando fuzis e por um sargento que berrava, depois de apreender a perigosa arma: “Mãos para cima! Não se mexa! Documentos!”
Após longo IPM (Inquérito Policial Militar) que envolveu várias perguntas (“Você vem de onde?”, ‘Trabalha onde?”, “O que faz na rua a essa hora?”), Zé Carlos foi liberado e teve sua arma de volta, depois de receber alguns tapas e ouvir várias ameaças.
Chico Ribeiro Neto chicoribe@gmail.com nasceu em Ipiaú (BA) é jornalista profissional, começou na Tribuna da Bahia. Trabalhou na sucursal da Revista Manchete em Salvador e na sucursal do Jornal do Brasil em Porto Alegre. No jornal A Tarde foi editor de Economia, chefe de Reportagem e secretário de Redação
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22março2026