Castelo de Areia
A efetivação da liderança política no Brasil é complexa e moldada por uma mistura de herança histórica, arranjos institucionais e dinâmicas sociais específicas. Não se trata apenas de ocupar um cargo eletivo, mas de como o poder é conquistado, exercido e legitimado perante a sociedade.
Assim procurei o sociólogo e professor da UFBA. Aristeu Borges para explicitar o assunto, que passou a descrever: Historicamente, o eleitorado brasileiro tende a se conectar mais com indivíduos do que com partidos políticos ou programas ideológicos. Essa característica personalista faz com que líderes frequentemente construam sua legitimidade com base no carisma e na capacidade de comunicação direta com as massas, muitas vezes assumindo uma postura de "defensor do povo".
No plano institucional, liderar exige uma alta capacidade de negociação. Como o sistema partidário é fragmentado (no Brasil, existem dezenas de partidos), nenhum presidente, governador ou prefeito consegue governar sozinho. A liderança política bem-sucedida, portanto, depende da habilidade de construir maiorias parlamentares por meio da ocupação de cargos e oportunidades orçamentárias. Quem não domina essa engrenagem enfrenta sérias crises de governabilidade.
Embora o país tenha se modernizado, as raízes do mandonismo local e do clientelismo (a troca de apoio político por favores, bens ou serviços) ainda influenciam a liderança, especialmente em níveis municipais e regionais. O líder político muitas vezes é visto como um "intermediário" que traz recursos do governo federal ou estadual para a sua comunidade.
Nos últimos anos, para se estabelecer como liderança passou por uma forte transformação digital. Atualmente, a capacidade de pautar o debate público nas redes sociais, engajar comunidades virtuais e criar narrativas de impacto imediato tornou-se tão importante quanto o tempo de TV ou o apoio de elites tradicionais. Isso abriu espaço para lideranças mais polarizadas e pulverizadas.
Em resumo, para se constituir um líder político significa equilibrar a conexão emocional e carismática com o povo e a habilidade pragmática de negociar com o arranjo institucional dos colegiados (senado, Câmara, assembleia legislativa e câmara de vereadores) e dos partidos. Na Bahia e no município de Camaçari a dinâmica política se assemelha às ocorrências no âmbito nacional.
A política camaçariense é tradicionalmente movida por nomes fortes que centralizam o debate e criam identidades quase familiares com o eleitorado. A histórica rivalidade e o revezamento de poder entre grupos tradicionais mostram que o eleitor local muitas vezes vota na figura da liderança e na memória de sua gestão.
Um exemplo emblemático foi a eleição histórica de 2024 (a primeira com segundo turno), onde o peso do carisma e do histórico de lideranças como Luiz Carlos Caetano (PT) e o grupo governista de Antonio Elinaldo (UB) dividiram o município quase milimetricamente, mostrando que a liderança em Camaçari passa muito pela conexão afetiva ou rejeição as figuras centrais.
Se no plano federal o presidente precisa negociar com o Congresso, em Camaçari o prefeito eleito enfrenta o desafio do “da coalizão". Na mesma eleição de 2024, Luiz Caetano (PT) venceu com 50,92% dos votos, mas a oposição conquistou a maioria das cadeiras na Câmara Municipal (12 dos 23 vereadores). Para liderar e conseguir governar a partir de 2025, o líder do Executivo precisa exercer uma habilidade pragmática de negociação com o Legislativo, distribuindo espaços na gestão e articulando projetos para não ver o governo engessado.
No município sede do maior polo petroquímico do Hemisfério Sul, o exercício da liderança está intrinsecamente ligado à capacidade de entrega material e à divisão geográfica do município. O líder político local é cobrado pela capacidade de dialogar com trabalhadores e com empresários no sentido de garantir a geração de emprego e renda, assim como promover a execução e entrega de serviços essenciais à população.
O executivo municipal precisa atuar como uma "ponte", equilibrando investimentos em infraestrutura e serviços básicos para a sede e projetos de desenvolvimento e turismo para a orla. O político que falha em ser visto como um intermediário eficiente para ambas as realidades perde a sustentação popular.
A força de uma liderança em Camaçari depende fortemente de suas conexões externas. A cidade é estratégica para os partidos por sua arrecadação e importância geopolítica na Região Metropolitana de Salvador. Por isso, ser líder aqui significa saber nacionalizar o debate. Assim sendo, a liderança política no Brasil não se faz no isolamento. Ela exige o carisma para arrastar multidões em comícios, e a frieza institucional para costurar alianças.
Que DEUS e os Orixás nos protejam.
Adelmo Borges dos Santos adelmook@gmail.com
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27junho2026