Wagner e Neto: adversários com o mesmo telhado de vidro
Citações na proposta de delação do ex-dono da Reag aumentam o constrangimento dos rivais e recolocam o caso Master na campanha baiana
Quem diria: Jaques Wagner e ACM Neto, separados pelos palanques, aparecem juntos no noticiário sobre a proposta de delação de João Carlos Mansur, ex-dono da Reag. Não é uma aliança eleitoral. É uma vizinhança incômoda nos anexos apresentados à Procuradoria-Geral da República, tendo Daniel Vorcaro como alvo principal. Segundo o UOL, o acordo ainda aguardava assinatura. Citação não é condenação, mas exige explicações.
Segundo o relato divulgado, Mansur comprou, a pedido de Augusto Lima, ingressos de R$ 63,3 mil para um show de Taylor Swift destinados a Wagner. O senador diz que pediu ajuda a um amigo para conseguir as entradas e que não conhece Mansur nem teve relação com a Reag.
Neto aparece como dono de um fundo administrado pela gestora, com aplicações em outro ligado a créditos do Master. Afirma que os recursos são lícitos, declarados e que tudo ocorreu dentro da legalidade. As situações são diferentes; nenhuma autoriza antecipar culpa. Ambas justificam cobrança pública.
O tempero político está no silêncio conveniente. Reportagens já apontavam um entendimento entre os dois grupos para deixar o caso Master fora da disputa.
Se confirmado, seria um curioso acordo de “cavalheiros”: podemos brigar por tudo, desde que ninguém mexa no assunto que incomoda os dois.
Na disputa pelo eleitor de Lula, porém, a delicadeza desaparece. Wagner rechaçou o voto “Lula-Neto” e vinculou o adversário ao bolsonarismo. Portanto, o PT reclama, sim.
A contradição que merece atenção é outra: por que tanta disposição para fiscalizar a preferência presidencial do eleitor e tamanha conveniência em poupar o adversário quando o assunto é Master?
A proposta de Mansur dificulta qualquer tentativa de varrer o tema para debaixo do tapete. Seus relatos precisam de comprovação, e as defesas precisam ser consideradas. Mas o eleitor não deve aceitar que a campanha escolha quais perguntas podem ser feitas.
Até 4 de outubro, Wagner e Neto terão de explicar mais do que suas diferenças. Terão de esclarecer os fatos que os colocaram no mesmo noticiário.
Porque telhado de vidro não pode virar salvo-conduto para um pacto de silêncio.
José Américo Moreira da Silva zamerico1961@gmail.com é jornalista, publicitário, baiano radicado em Brasília
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28agosto2026