El Niño e suas travessuras
Este menino vai chegar com febre e irritado e as nossas autoridades estão baratinadas sem saber o que fazer. Por que ter tanto medo de sua moléstia? Se suas mijadas provocam alagamentos é porque não oferecemos comadres adequadas.
Cachoeira alagava todos os anos, mas depois que fizeram a Pedra do Cavalo, que fornece água para a RMS e para as lavouras, nunca mais alagou. O mesmo ocorreu no Recife. Não se fazem novas represas e piscinões porque o BNDES não financia desapropriações para não ferir o ultrapassado conceito de propriedade privada absoluta. Por isso estamos condenados a sofrer os desastres das mudanças climáticas.
É ridículo que São Paulo sofra alagamentos todos os anos, enquanto raciona água potável porque suas represas não foram ampliadas e estão poluídas. Os sistemas Cantareira, Guarapiranga, Alto Tietê e Billings foram criados na primeira metade do século passado e nada mais foi feito. Não se atualizou a infraestrutura hidráulica das nossas cidades, que triplicaram de tamanho e foram impermeabilizadas com concreto e asfalto.
Desde o século XVIII, os grandes rios do Hemisfério Norte foram domados com represas e calhas revestidas para o fluxo normal e ampliadas lateralmente para as cheias. O nosso São Francisco abastece hoje todo o Nordeste, mas não tem um só canal para o sertão baiano.
El Niño com sede chupa a água do Norte e do Nordeste provocando secas e queimadas. Travesso, ele faz par-ou-ímpar com sua prima, La Niña, para saber em que região do país vão acampar. A visita desses dois inocentes é cíclica e previsível, mas não se prepara nada para sua chegada. Em países sujeitos a terremotos, como o Japão, se reconstroem os edifícios sobre rodízios para evitar novos desmoronamentos e mortes.
Quando EL Niño sopra, tosse ou espirra, telhados voam, árvores caem sobre a rede elétrica provocando apagões que podem durar uma semana. Isto não ocorreria se as nossas árvores fossem podadas e estaiadas adequadamente, se usássemos telhas adequadas e as nossas redes elétricas fossem transferidas para o subsolo, como ocorre em todo o mundo.
Continuamos sofrendo alagamentos, deslizamentos de terra, secas, mortes e as perdas irreparáveis de bens dos mais pobres, porque para os nossos governantes planejamento é perda de tempo e não gera cashback atrativo. É preferível fazer viadutos que não servem para nada ou uma ponte para engarrafar a baía e a cidade de Salvador. Se criou estupidamente, no país, a ideia de que o planejamento limita a iniciativa privada e a governança pública.
Se houvesse planejamento e loteamentos populares, não haveria favelas em encostas periclitantes e nas margens de rios poluídos, que quando chove levam suas casas e matam centenas de crianças e adultos. El Niño envelheceu, tem 2026 anos, está cansado e frustrado por não ter conseguido mudar este quadro.
Paulo Ormindo pauloormindo@gmail.com é arquiteto, professor titular aposentado da UFBA e membro da Academia de Letras da Bahia, do Instituto dos Arquitetos do Brasil e da Associação Bahiana de Imprensa
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5agosto2026