A derrota antes da urna
Ao reeditar o discurso contra as urnas eletrônicas, Flávio Bolsonaro parece preparar a narrativa da derrota antes mesmo de o eleitor votar
Toda campanha presidencial enfrenta momentos de turbulência. O problema surge quando a estratégia deixa de ser conquistar votos para passar a administrar uma possível derrota.
É justamente essa impressão que ganha força quando Flávio Bolsonaro volta a levantar suspeitas sobre as urnas eletrônicas, repetindo um roteiro semelhante ao adotado por seu pai em 2022. Não é uma discussão nova nem uma denúncia inédita. É a reedição de uma narrativa já examinada, contestada e rejeitada pela Justiça Eleitoral.
O aspecto mais emblemático dessa estratégia é que o próprio Tribunal Superior Eleitoral voltou a desmentir as declarações de Flávio Bolsonaro sobre as urnas eletrônicas, reafirmando que são falsas as alegações divulgadas pelo senador. O fato ganha ainda mais relevância porque o TSE é presidido pelo ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Ou seja, não se trata de uma contestação feita por adversários políticos do bolsonarismo, mas pela própria Justiça Eleitoral sob a condução de um magistrado escolhido pelo pai do candidato.
Ao mesmo tempo, sua pré-campanha acumula sucessivos desgastes. A autorização do ministro André Mendonça para que a Polícia Federal investigue os repasses financeiros relacionados ao documentário Dark Horse ampliou o desgaste político da candidatura. Somam-se a isso as revelações envolvendo operações financeiras ligadas ao empresário Daniel Vorcaro e uma sequência de fatos que mantêm a campanha permanentemente na defensiva.
No campo político, o cenário também mudou. Lideranças que antes enxergavam em Flávio Bolsonaro um candidato competitivo passaram a demonstrar preocupação com a dificuldade de ampliar sua base eleitoral. Cresce a percepção de que a candidatura perdeu capacidade de atrair o eleitor moderado, indispensável para vencer uma eleição presidencial.
Outro fator de desgaste veio do exterior. As tarifas impostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros passaram a ser vistas por parcela significativa da opinião pública como medidas de forte conteúdo político. A atuação de Eduardo Bolsonaro em território norte-americano, defendendo sanções ao Brasil durante o processo eleitoral, acabou reforçando o debate sobre soberania nacional. Independentemente das justificativas apresentadas por seus aliados, a percepção política foi a de que interesses eleitorais foram colocados acima dos interesses do país.
Nesse ambiente, insistir no discurso de desconfiança sobre as urnas parece cumprir uma função muito mais política do que eleitoral. Em vez de ampliar apoio popular, prepara uma explicação antecipada para um eventual resultado desfavorável.
É evidente que eleição só termina quando o último voto é apurado. As pesquisas não elegem ninguém, e a palavra final pertence exclusivamente ao eleitor. Mas campanhas também transmitem sinais. E, quando um candidato dedica mais energia a questionar previamente o sistema de votação do que a convencer os brasileiros de seu projeto de governo, passa a impressão de que já organiza a narrativa do pós-eleição.
Talvez seja justamente esse o objetivo: construir uma saída honrosa para uma derrota que parte do próprio entorno político já considera possível. Porque quem começa a contestar o resultado antes da votação, muitas vezes, revela que a maior batalha deixou de ser contra o adversário e passou a ser contra a realidade.
José Américo Moreira da Silva zamerico1961@gmail.com é jornalista, publicitário, baiano radicado em Brasília
Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor
24julho2026