Olossá: a senhora das águas paradas que o Brasil (quase) não conheceu
Enquanto Iemanjá reina com os braços abertos para o mar e em todas as águas, principalmente no litoral brasileiro, uma parte expressiva de sua família ficou do outro lado do Atlântico. É o caso de Olossá (ou Olòssá), uma Orixá que, na prática, quase nunca desembarcou nos terreiros baianos, pernambucanos ou maranhenses – ao menos não com a presença marcante que teve na África.
E não se trata de um detalhe menor: Olossá é dona das lagoas, dos manguezais, dos estuários e de todas as águas que ficam antes do mar, aquelas que misturam doce e salgado, onde a vida se refugia e a fartura se esconde.
Quem é Olossá e onde ela habita? Do ponto de vista da geografia sagrada iorubá, Olossá habita, principalmente, a Bacia de Badagry, um complexo hidrográfico que se estende da Nigéria ao Benim, Togo e Gana. Seu corpo mítico é a própria laguna de Badagry, lagoas antes da praia e os pântanos costeiros que cercam o Estado de Lagos.
Seu rio principal de desembocadura é o Yewa (ou Ewá), que despeja água doce na laguna, equilibrando a salinidade numa região de transição entre o continente e o oceano. É nesse limite, nessa zona de encontro, que Olossá exerce seu governo.
Entre os subgrupos Egun/Ogu e Awori – tradicionalmente pescadores e habitantes dessa faixa litorânea, Olossá é cultuada como guardiã da pesca e da sustentabilidade das comunidades ribeirinhas. Não se trata apenas de uma divindade das águas calmas. Ela é, acima de tudo, uma Orixá de ética e proteção: ensina que os crustáceos, os peixes e toda a vida dos manguezais não são recursos à disposição do arbítrio humano, mas dádivas que exigem respeito e reciprocidade.
Cores, sabor e saudação As cores de Olossá são o verde das lagoas calmas, o branco da fartura que emerge do silêncio das águas e o azul-claro do céu que se espelha sem pressa na superfície dos manguezais.
Seu gosto não é o sal que corrói, mas o adocicado das águas de transição, o encontro entre o doce do rio Yewa e o salgado que vem do mar, sem nunca se misturar por completo.
Sua saudação ecoa como um chamado à estabilidade: "Odoyá Olossá!" – uma reverência à senhora das lagoas. Ou, em tom mais profundo de respeito à força que habita as águas paradas: "Eruyá!"
Oferendas e animais sagrados As oferendas tradicionais dedicadas a Olossá buscam atrair a calmaria, a fartura e o equilíbrio financeiro. Entre os elementos mais comuns estão:
Ovos de pata com azeite de dendê (ẹyin abo pẹ́pẹ́ iyẹ epo)
Peixes de água doce preparados com especiarias suaves
Frutas frescas como melão e laranja
Flores claras colocadas à beira de lagoas calmas
Seus animais mensageiros e sagrados na África são os crocodilos, que habitam justamente as regiões de transição entre rios, lagoas e mangues, guardiões silenciosos das águas que não quebram ondas, mas sustentam a vida onde poucos aprenderam a olhar.
Por que Olossá não é cultuada no Brasil? A ausência (ou presença muito restrita) de Olossá no Brasil não é acidental. As rotas do tráfico negreiro para o país privilegiaram determinadas nações iorubás e determinados cultos, enquanto outros, como os das regiões lagunares, ficaram de fora. O que aqui se preservou de Iemanjá é imenso, mas veio sem suas irmãs. Olossá é uma dessas ausências que precisam ser nomeadas.
Diferente de Iemanjá, que comanda todas as águas, principalmente os rios, Olossá comanda as águas que não quebram ondas e não têm correnteza. Sua força não está na tempestade, mas na estabilidade dos espelhos d’água. Não está no sal que corrói, mas no encontro que fertiliza. É uma Orixá sensível, extremamente protetora e zelosa.
E em Camaçari? Um convite ao olhar Se encerrássemos o texto aqui, o leitor de Camaçari poderia perguntar: e isso tem a ver comigo? Sim. Nossa cidade é banhada por lagoas, manguezais e estuários, como a Lagoas de Arembepe, o Rios Joanes, Pojuca, Capivara e as áreas de mangue que cortam a região. Nessas águas paradas, onde o doce e o salgado se encontram, habita a mesma energia que os iorubás chamam de Olossá.
Ainda que ela não tenha altar nos terreiros locais, sua força e seu ensinamento estão ali: as águas calmas também têm dona, e essa dona é feminina. Proteger os manguezais, respeitar o ciclo da pesca e cuidar das lagoas é, no fundo, um ato de devoção a Olossá – mesmo sem saber o seu nome.Numa época em que se fala tanto de sustentabilidade e de proteção dos ecossistemas costeiros, lembrar de Olossá é também lembrar que as águas paradas não são um vazio esquecido. São território sagrado, fonte de vida e memória ancestral.
Que possamos aprender a olhar para elas com o respeito que uma Orixá merece. Àṣẹ.
João Borges é artista, filósofo, historiador, babalorixá, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Difusão do Conhecimento (PPGDC/UNEB), professor visitante na LASU (Lagos State University) e artista multimídia.
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5junho2026