Carnaval da Bahia: a festa que virou vitrine e esqueceu o próprio chão
Entre camarotes, cercas e conflitos de bastidores, Salvador assiste ao esvaziamento dos circuitos históricos e à privatização progressiva da maior manifestação cultural do país
O Carnaval da Bahia continua sendo um espetáculo de proporções gigantescas. Move a economia, atrai turistas do mundo inteiro e mantém Salvador no centro do calendário cultural brasileiro. Mas é preciso reconhecer que, apesar do sucesso numérico e midiático, a festa está longe de representar um modelo de excelência em gestão pública e preservação cultural.
Nos últimos anos, o carnaval vem sendo conduzido por uma lógica cada vez mais empresarial, orientada sobretudo pelo lucro dos grandes empreendedores do entretenimento. A festa popular, que nasceu do batuque, do samba e das manifestações afro-brasileiras, vai sendo gradualmente moldada para atender interesses privados. E é importante destacar: o trio elétrico, a guitarra elétrica e o trio como grande puxador de foliões também são parte dessa tradição legítima, uma criação baiana que revolucionou o modo de celebrar nas ruas. O problema, portanto, não é o trio. O problema é o modelo que se impõe ao redor dele.
A expansão desordenada dos camarotes ao longo do circuito Dodô e Osmar, especialmente na Barra-Ondina, transformou a orla em uma vitrine cercada, onde a rua parece cada vez menos pública. O circuito tornou-se o “coração oficial” do evento, enquanto os circuitos tradicionais do Campo Grande e do Pelourinho são tratados como áreas secundárias, quase como se fossem espaços destinados apenas ao que não cabe na festa “principal”. A diferença social do público que ocupa cada circuito parece ter se tornado critério silencioso de prioridade.
E é justamente nesse circuito mais valorizado que se evidenciam os sinais mais graves de desorganização. O que se viu recentemente na Barra-Ondina foi um ambiente de tensão crescente, com conflitos entre blocos, trios, artistas e entidades carnavalescas, em disputas explícitas por protagonismo, prioridade na fila, horários, espaço e regras de circulação. A cena se repetiu em atrasos sucessivos, paradas inesperadas, congestionamentos de trios e clima de irritação generalizada — tanto para artistas quanto para foliões e trabalhadores da festa.
Esses conflitos, muitas vezes tratados como “incidentes pontuais”, na verdade expõem uma fragilidade estrutural: a falta de planejamento e de autoridade técnica na gestão do fluxo do carnaval. Quando cada ator tenta impor sua força econômica ou seu prestígio artístico para garantir prioridade, o resultado inevitável é o colapso operacional. A festa perde ritmo, perde segurança e perde o que deveria ser sua essência: a alegria espontânea e coletiva.
Enquanto isso, o abandono do trecho da rua Carlos Gomes se mantém como símbolo dessa escolha de gestão. A via que fazia parte do percurso clássico do carnaval — Campo Grande, Praça Castro Alves e retorno — virou estacionamento de trios e carros de apoio, contribuindo para a degradação urbana de uma região que já foi central na vida cultural de Salvador. A negligência atinge em cadeia a Avenida Sete de Setembro, o 2 de Julho, a Gamboa e todo o centro, que deveria ser tratado como patrimônio vivo da cidade.
Nesse contexto, o gesto de Ivete Sangalo ao levar seu trio até a Praça Castro Alves e retomar o circuito da Carlos Gomes foi mais do que uma decisão artística: foi uma manifestação simbólica e política em defesa de um carnaval plural, integrado e respeitoso com a história da cidade. Um gesto isolado, mas revelador.
Na outra ponta, a concentração do evento na Barra e Ondina tem produzido impactos urbanos e sociais que já não podem ser tratados como “efeitos colaterais naturais”. A região é sitiada. Moradores enfrentam bloqueios, restrições severas de mobilidade, desgaste das estruturas públicas e intervenções autoritárias sem contrapartidas, compensações ou alternativas razoáveis. O direito de ir e vir, em plena capital, vira concessão temporária.
O Carnaval de Salvador precisa ser revisto com urgência. Planejado de forma democrática, transparente e equilibrada. Discutido com entidades carnavalescas, blocos tradicionais, blocos afros, artistas, moradores e produtores culturais. Precisa de uma política específica e clara para instalação e exploração de camarotes, ocupação dos espaços públicos e organização do fluxo de trios. Caso contrário, corre-se o risco de transformar a maior festa popular do Brasil em um produto cada vez mais eficiente e rentável — porém esvaziado de identidade e marcado por conflitos de bastidores.
Carnaval sem povo, sem rua e sem memória pode até ser um grande negócio. Mas deixa de ser Carnaval.
José Américo Moreira da Silva zamerico1961@gmail.com é jornalista, publicitário, baiano radicado em Brasília
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20fevereiro2026