Busca:

  Notícia
 
João Borges no Colunistas: Carnaval, resistência e apagamento


João Borges é artista, filósofo, historiador e Babalorixá

 


Tá barril!


Estou aqui na Nigéria, em Lagos, observando os preparativos para o Eid-el-Kabir — o Hamdan, como alguns chamam — e não consigo deixar de pensar no Carnaval. Ironia do destino: estou na terra onde nasceram os orixás, os ritmos, as coreografias, as estéticas que o Brasil — especialmente a Bahia — transformou em produto e exportou para o mundo. E penso: como se apropriam de nós.


Penso no Ilê Aiyê, no Olodum, no Muzenza. Penso nos blocos afro que há mais de quarenta anos enfrentam o racismo com beleza, que transformaram a autoestima do povo negro em ferramenta de luta, que inventaram um carnaval de resistência enquanto o poder público os empurrava para as margens. E penso: onde estão eles agora na fila dos blocos da Barra?


Porque a verdade é uma só, e é dura: a antiguidade não vale nada quando se trata de dinheiro. O Ilê Aiyê — primeiro bloco afro do Brasil, criado em 1974 no Curuzu, coração da negritude baiana — deveria ter lugar de honra em qualquer circuito. Mas o que vemos? Blocos financiados por empresas, bancos e cervejarias ocupando as melhores posições, enquanto os verdadeiros criadores da estética afro-baiana amargam na curva. Armandinho, Macedo, Daniela Mercury — todos têm história, todos contribuíram, ninguém nega. Mas têm menos história que os blocos afros e afoxés, e, no entanto, têm poder de reivindicação que os negros não têm. Por quê? A resposta é uma só: são brancos aliados na luta contra o racismo, mas são brancos. E ser branco, neste país, ainda significa falar mais alto.


O atropelo é sistemático. Os blocos afros — que inventaram o som, o suingue, a percussão que o mundo inteiro copia — são empurrados para horários ingratos, para posições que ninguém quer, para espaços que o capital não disputa porque não dão lucro suficiente. Enquanto isso, os camarotes reinam absolutos na Barra, no Ondina, em toda parte. O camarote não é espaço de festa — é símbolo da apartheid social. De lá, os brancos ricos assistem à multidão negra como quem vai ao zoológico. De lá, pagam para ver, sem se misturar, sem suar, sem sentir o suor do povo que criou aquela festa. O espaço das pipocas — o povo simples que brinca atrás do trio, sem cordas, sem abadás, sem dinheiro — diminui a cada ano. As cordas avançam, os cordeiros seguram a multidão, e o povo negro, que inventou o carnaval de rua, é empurrado para trás.


E os preços? Não falo só da Bahia. Olhem para o Rio de Janeiro. Uma fantasia de escola de samba custa o salário-mínimo de três meses. Uma alegoria custa o que uma família negra não ganha em um ano. As escolas — que são negras, que são favela, que são resistência — dizem as mas línguas, ser financiadas pelo jogo do bicho, pelo tráfico, pelo capital que suga até a última gota da criatividade negra antes de devolver migalhas. São Paulo então — a Paulista tomada por trios elétricos importados da Bahia, mas sem negros na organização, sem negros no comando, sem negros no lucro. O carnaval paulistano é a prova cabal de que se pode copiar a estética sem copiar a ética, sem respeitar a epistemologia, sem dar crédito à riqueza ancestral que inventou aquilo tudo.


Porque é disso que se trata: antiguidade é posto. Na Iorubalândia, aqui na Nigéria, Benin a antiguidade define hierarquia, define respeito, define quem fala primeiro, quem come primeiro, quem senta primeiro. O mais velho não é apenas mais velho — é detentor de axé, é guardião do saber, é ponte com os ancestrais. Quando um bloco afro tem quarenta anos de existência, isso deveria significar algo. Quando um afoxé tem cem anos de história, isso deveria pesar na balança. Mas o capital não pesa ancestralidade — pesa rentabilidade. E a rentabilidade, no carnaval brasileiro, está em embranquecer a festa, em torná-la palatável para o turista europeu, em transformar o sagrado em produto, o rito em espetáculo, a resistência em mercadoria.


Vejam o que fizeram com os Caboclos de Lança de Pernambuco. Ali está um dos mais belos símbolos da resistência negra e indígena no Brasil. Aquelas lanças, aqueles Axós  enormes, aquelas coreografias que lembram guerreiros em batalha — tudo isso é sobrevivência, é memória viva dos quilombos, é afirmação de que o povo negro não foi vencido. E o que o capital faz? Transforma em atração turística, em foto para Instagram, em "exotismo" para brancos que nunca pisariam num terreiro de jurema. O sagrado vira folclore. A resistência vira espetáculo. O guerreiro vira adereço.


E no Sul do Brasil? Lá o negócio é mais grave. Lá a violência contra o povo negro não é só simbólica — é física, explícita, fascista. Os governos do Sul — com raras exceções — tratam a cultura negra como invasão, como ameaça, como coisa de "gente de fora". Os blocos de rua em Porto Alegre, em Florianópolis, em Curitiba, enfrentam não apenas a falta de apoio, mas a hostilidade aberta do poder público e de parte da população. Enquanto isso, os mesmos governos importam trios elétricos baianos, contratam artistas negros para fazer o "autêntico carnaval brasileiro", e depois devoram o que sobrou sem deixar migalhas para quem produziu.


A pergunta que fica, enquanto observo o Hamdan se aproximar aqui em Lagos, é simples e cruel: por que o povo negro ainda aceita isso?


Por que aceitamos que a fila dos blocos seja decidida por quem paga mais, não por quem inventou mais? Por que aceitamos que a estética afro-baiana — as cores do Ilê, os ritmos do Olodum, a força do Muzenza — seja usada para vender cerveja para brancos ricos em camarotes que nos excluem? Por que aceitamos que a ancestralidade seja atropelada pelo capital sem ao menos um grito de guerra?


Há resistência, sim. Há o Ilê na rua, há o Olodum na rua, há o Muzenza tentando está na rua, há os afoxés na rua. Há os Filhos de Gandhy, com sua paz e sua brancura ritual, lembrando que a Bahia é África. Há o povo pipoca que resiste nas laterais, que dança sem cordas, que inventa seu próprio carnaval apesar de tudo. Mas a resistência, por si só, não basta — é preciso tomar de volta o que é nosso. É preciso que o poder público reconheça que a antiguidade é posto, que o valor civilizatório africano não pode ser desconsiderado pela indústria financeira do carnaval. É preciso que os blocos afros ocupem o lugar que lhes pertence por direito — o lugar de honra, o lugar de fala, o lugar de mando.


Porque enquanto a antiguidade não valer nada, enquanto o mais velho for empurrado para a margem, enquanto o capital decidir quem brinca onde, o carnaval brasileiro será apenas uma festa de brancos fantasiados de negritude. Uma festa que copia a estética, mas rejeita a ética. Que aplaude os ritmos, mas silencia os ritos. Que celebra a alegria, mas esquece a dor.


Aqui na Nigéria, o Hamdan se aproxima. As ruas se enchem de branco, de orações, de famílias reunidas em torno da tradição. Não há camarotes. Não há cordas. Não há abadás vendidos a preço de ouro. Há comunidade, há partilha, há respeito aos mais velhos. Há antiguidade como valor civilizatório, não como obstáculo a ser superado.


Quando volto o olhar para o Brasil, para a Bahia, para o carnaval que eu amo e que me dói, penso: ainda há tempo. Ainda há tempo para que os blocos afros retomem seu lugar. Ainda há tempo para que a antiguidade seja respeitada. Ainda há tempo para que o povo negro ocupe, de fato, o espaço que seu suor, seu sangue e sua criatividade construíram. Mas o tempo corre. E o capital não espera.


Axé para quem resiste.


João Borges é artista, filosofo, historiador, Babalorixá, é pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Difusão do Conhecimento (PPGDC/UNEB) e Professor em estágio de Doutorado Sanduiche na Lagos State University, Babalorixá e Artista Multe Linguagem 


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

18fevereiro2026

Mais Notícias

Estudo da CNC diz que fim da jornada 6X1 pode gerar cortes de postos de trabalho
Luiz Carlos Azedo no Colunistas: O STF e a necessidade de revisão
Angélica Ferraz no Colunistas: Informação e compromisso
Coluna Camaçarico 23 fevereiro 2026
Eleitor tem até o dia 6 de maio para alterar o local de votação ou atualizar dados pessoais
José Américo da Matta no Colunistas: Um personagem singular
Bahia fecha 2025 entre os estados com as maiores taxas de desemprego do país
Diocese de Camaçari festeja 15 anos com grande ato religioso
José Américo no Colunistas: Carnaval, lucro e separação
Maioria dos brasileiros conhece e já teve experiência com a Inteligência Artificial


inicio   |   quem somos   |   gente   |   cordel   |   política e políticos   |   entrevista   |   eventos & agenda cultural   |   colunistas   |   fale conosco

©2026 Todos Direitos Reservados - Camaçari Agora - Desenvolvimento: EL