Emergência Climática e revitalização dos rios
Neste quadro configurado de iminência de seca, de altas temperaturas e de temporais jamais enfrentados continuamente, a Bahia imensa é privilegiada, de um lado pela abundância de oferta de água, e ao mesmo tempo castigada, dada a escassez hídrica em áreas vaticinadas como em processo de desertificação ou sedimentadas onde os rios são de vazão temporária, e não os soubemos alimentar vencendo suas limitações.
O horror do que vem pela frente será constatar o óbvio: sempre as necessidades, na hora do calorão intenso e de chão infértil, levam os humanos e outros animais a buscarem e correrem em desespero para a água, seja a do rio que precisa estar caudaloso, como para a do mar, e eles não podem estar extremamente poluídos e mortos, impossibilitados de matar a sede, a fome e de aliviar o calor.
Há um escancarado desperdício de água na Região Metropolitana de Salvador que segue religiosamente o mantra da destruição progressiva dos recursos naturais em voga na capital baiana pela política do seu poder municipal, em benefício da ocupação dos espaços a qualquer título desordenada numa verdadeira apologia ao concreto para lucro dos setores imobiliários e industriais.
Muito se tem debatido sobre o desperdício do nosso potencial hídrico em um tempo que se vislumbra forte escassez de água devido ao El Niño à vista com efeitos drásticos sobre a Amazônia, Centro-Oeste e Nordeste brasileiro. Lamenta-se o tempo perdido para a recuperação de rios na capital e nos municípios da RMS, onde, apesar de ser considerado bom, é crítico o Índice de Qualidade da Água potável fornecida.
É inadmissível a situação de deterioração de trechos que não entram no fornecimento para uso doméstico de rios como a do Rio Joanes, que banha e abastece 40% de oito dos municípios da RMS a partir de suas barragens. Em Lauro de Freitas, o Joanes recebe lançamentos a todo momento de esgoto doméstico e de outros dejetos in natura sem tratamento procedentes da capital baiana.
São oito quilômetros na foz do Joanes no encontro do mar em Buraquinho que estão em franco processo de morte da vida aquática por alta poluição, por perda também de matas ciliares e da ocupação desordenada do solo urbano licenciada ao bel-prazer que transformou Lauro de Freitas, sem um Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) desde 2008, num grande aglomerado de concreto desprovido de área rural, cercado por água fétida, com apenas 50% de ações de rede de esgotamento sanitário concluídas durante as muitas gestões municipais de várias correntes que se sucederam. Este trecho do Joanes contaminado que faz divisa de Lauro de Freitas com Camaçari em Abrantes já compromete a balneabilidade das águas da turística Praia de Busca Vida no distrito camaçariense de Abrantes.
Das discussões em audiências públicas itinerantes programadas participam representantes das Prefeituras interessadas como Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari, São Francisco do Conde, onde fica a nascente do Joanes, Simões Filho, Dias D`Ávila, São Sebastião do Passé e Candeias; ainda entidades da sociedade civil organizada, a OSCIP Rio Limpo, que puxa o movimento pela revitalização do rio, setores empresariais, outras organizações ambientalistas, representações do Estado como Embasa, INEMA.
As audiências programadas por intermédio da Assembleia Legislativa da Bahia para obter consenso e formar um consórcio inter federativo unindo os municípios beneficiados pelas águas do Rio Joanes em torno das formas de intervenção que resolvam a sua despoluição e de afluentes. Delas espera-se a superação de questões como suposto negacionismo dos envolvidos, teorias privatistas de entidades e a da cor da camisa dos prefeitos que poderia levar à polarização de ordem política. Tecnologias (e financiamentos do exterior) aplicadas em modelos de intervenções vitoriosas pelo mundo, em avaliação ao final, entrarão em pauta para se bater o martelo pela adoção do Consórcio... Se em dólar ou Yuan...
Neste ínterim, o mundo atônito vê desmoronar seus sonhos de civilização, no que construíram e inovaram, ante as consequências avassaladoras das severas mudanças climáticas, até antes mesmo do previsto forte Fenômeno El Niño atuar com força total. É agora no momento de chorar perda de vidas, de lares e de reconhecimento da nossa frágil infraestrutura urbana, devido ao calor extremo, tornados, furações, enchentes e seca, tudo agravado por coincidentes terremotos, que colocam abaixo as teorias negacionistas dos que querem fazer acreditar serem as mudanças climáticas meros eventos cíclicos, da mesma forma que creram em inapropriadas intervenções no Brasil com medicações como Cloroquina e Ivermectina para a cura da Covid.
Um novo resfriamento do planeta não virá de forma natural e a água não brotará de imediato do chão sem que os países se unam para corrigir e se adaptarem a um novo modo de viver na natureza, tendo a educação ambiental e ela, a natureza, como sua aliada primordial para reflorestamento e correção de rumos.
Angélica Ferraz de Menezes menezesangelicaferraz@gmail.com é jornalista, conselheira da OSCIP Rio Limpo, coordenou o Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu, o Projeto Alvorada na microrregião de Barra/São Francisco, cursos de Meio Ambiente, Combate à Violência/ Direitos Humanos e de Gestão Social na área do São Francisco, e o Projeto Memória Kirimurê da Oscip Centro de Pesquisas e Ações Socioambientais Kirimurê
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26agosto2026