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Diego Copque


Camaçari no caminho do “fogo simbólico” e sua presença na Independência da Bahia



A história de Camaçari e sua presença nos principais momentos de formação da história da Bahia e do Brasil não começa nos anos de 1970 com o Polo petroquímico e todo o seu legado com o novo e moderno Polo Industrial, o maior da América Latina. Camaçari vai muito além de Vila de Abrantes. A aldeia do Espírito Santo foi um dos primeiros aldeamentos a ser fundado no Brasil, iniciado pelos padres jesuítas no ano de 1558.


Também foi o primeiro aldeamento a se tornar vila indígena no Brasil. O aldeamento do Espírito Santo foi um dos pilares de sustentação do projeto colonizador na defesa de ataques internos e externos, principalmente devido à sua proximidade com a capital do país que impedia a expansão dos invasores para os sertões da colônia. 


Com a invasão dos holandeses em 1624, o aldeamento se tornou capital e sede de resistência do Brasil. Os índios tiveram uma importante e decisiva participação nas ações de combate contra os batavos e suas táticas de guerra foram denominadas de "guerras brasílicas.


Camaçari também teve presença, ainda não devidamente mensurada, nas lutas pela Independência da Bahia. Um desses marcos é a “Estrada das Boiadas”. Poucos sabem da sua existência e da sua importância histórica e comercial.


A Estrada Real das Boiadas era uma trilha de terra que unia a cidade do Salvador a outras capitanias do país. Essa imemorial estrada que corta Camaçari na região do bairro do Triângulo até o bairro de Santa Maria, conserva um trecho que servia para passagem do gado bovino criado nos sertões do Brasil, destinados a comercialização na Feira de Capuame, atual município de Dias D’ Ávila, esse gado seguia para o abate na cidade do Salvador, dando origem ao nome de "Estrada das Boiadas".


Essa mesma estrada está inserida no contexto histórico das lutas pela Independência do Brasil na Bahia, e todos os anos o fogo simbólico das comemorações do dia 2 de Julho é levado a Igreja de São Bartolomeu de Pirajá, onde estão os restos mortais do general francês Pierre Labatut. Saindo da cidade de Cachoeira, uma das referências nas lutas para a independência, o fogo simbólico passa por Saubara, Santo Amaro da Purificação, São Francisco do Conde, Candeias e Simões Filho, ficando de fora os municípios de Camaçari e Dias D' Ávila que foram importantíssimos nesse processo.


Em sua "Obras Poéticas", Ladislau dos Santos Titara, militar que participou das ações de combate da independência é natural de Capuame e também autor da letra do Hino ao 2 de julho, ele nos traz importantes informações a respeito da atuação dos soldados do regimento de linha, que sob as ordens do primeiro-sargento Manoel Alves do Nascimento, se apresentaram na Feira de Capuame ao comandante das forças da Torre e Pirajá, Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque.


Esses militares organizaram  na Casa da Torre em Açu da Torre os regimentos denominados de Batalhões da Torre para fazer frente ao batalhão do exército português. Devido ao sucesso de sua atuação, Carvalho e Albuquerque foi nobilitado com o título de Barão e Visconde de Pirajá.


Santos Titara, além de descrever os feitos militares, menciona os rios Joanes, Jacuípe, Camaçari, da Prata e Piaçaveira. Sua obra é um importante testemunho da atuação de Abrantes, Açu da Torre, dos moradores  do povoado de “Camassary” e da região que compreendia a Feira de Capuame, hoje município de Dias D' Ávila na consolidação da Independência do Brasil na Bahia.


O trecho remanescente da Estrada Real das Boiadas, que passa pelo município de Camaçari, foi via de acesso das tropas brasileiras que no dia 2 de julho de 1823, seguiram vitoriosas com destino a cidade do Salvador. O exato trecho da estrada que nos referimos passa pelo atual município de Dias D’ Ávila, seguindo pela via de ligação, passa pelo Complexo Petroquímico de Camaçari até o bairro da Lama Preta chegando até o bairro de Santa Maria, se estende ao distrito de Góes Calmon que na época pertencia a Vila de Abrantes sendo denominada de Moritiba do Rio Joanes, hoje pertencente a Simões Filho.


Outra importante referência sobre a presença de Camaçari nesse processo está  na edição do dia 16 de julho de 1930 do “Jornal do Commercio” do Rio de Janeiro. Publicação noticiou o reconhecimento do Estado com relação à importância de Camaçari na Independência da Bahia.


Naquela altura foi inaugurado pela diretoria do Arquivo do Museu Estadual da Bahia, um marco comemorativo na cidade de Camaçari referente sua presença e importância no processo que resultou na entrada das tropas libertadoras na cidade do Salvador, em 1823.


Acreditamos que essa seja uma das razões que possa justificar a inserção de Camaçari no circuito da passagem do fogo simbólico nas comemorações do 2 de julho. Esse reconhecimento histórico que data de 1930 e muitas outras histórias que se referem ao município de Camaçari não podem se perder no tempo. Por esta razão é muito importante a implementação de políticas públicas que valorize o ensino da história local.


Diego de Jesus Copque diegokopke@gmail.com é professor, compositor letrista, historiador, pesquisador da História de Camaçari e autor do livro em fase de edição "Do Joanes ao Jacuípe, uma história de muitas querelas, tensões e disputas locais"


 
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